» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(057)

Minha magricela ligou me acordando. Disse que daria uma rápida passada pra saber como foram os últimos dias. É sábado, eu não tinha nenhuma perspectiva de vida, então foi o bastante pra eu me sentir ridículo de tão contente.

Limpei cuidadosamente a pocilga onde moro. Lavei cuecas. Consertei a pia, que gotejava há meses. Saí pra comprar cigarros, jornal e abastecer os armários e a geladeira de mantimentos e bobagens para nós dois assistirmos algum filme depois de... você sabe. Com o ritmo, a produtividade e a empolgação que eu estava de fazer as coisas só porque ela viria, sei lá, até o fim do dia eu era capaz de descobrir algum antídoto para escorpiões ou formularia uma proposta irrecusável para a paz mundial. O céu estava aberto e fazia bastante sol, mas o dia estava agradável, ventando mansamente. E eu quase já nem sentia muco na minha garganta.

Voltei da rua. Almocei sozinho. Sentei e esperei. Já anoitecia em Porto Alegre quando desci intercalando vaga na minha boca entre uma ponta acesa de Lucky Strike e minha gaita-de-boca. Eu me sentia um paspalho desesperado e precisava respirar um ar novo, a fim de refletir para quem eu telefonaria mais tarde, ou em que bar sebento eu ia terminar depressivamente meu sábado.

Com as mãos sempre nos bolsos e chutando pedregulhos residuais de uma obra civil em andamento, vejo o corpo esguio de uma menina de melenas escuras e um metro e setenta, que vem do outro lado da rua. De perto, o hálito de Juliete denuncia: ela está levemente embriagada, sem nenhum motivo aparente.

*
Somente lá em cima a garota me dirige alguma palavra, só que não entendo bem o relincho. Ficamos alguns infinitos minutos em silêncio no escuro. Sem emitir qualquer ruído além de nossos pulmões aflitos renovando o ar e nossas pulsões cardíacas produzindo o zumbido traiçoeiro de nossos jovens, vadios e arrebentados corações. Até que ela me dá um retardatário “oi”, sem muita objetividade. Fiquei meio reação, sem saber o que responder. Eu estava incomodado porque ela havia bebido e chegado naquele estado. Eu sei, eu sei, grande áfrica alguém tomar uns copos, mas eu passei o dia todo esperando outra coisa.

– Não tenho onde morar – solta essa.
– O quê? Como assim, porra?
– Não sei se verei minhas plantas do jardim de inverno novamente.
– Caralho, o que você tá dizendo? – pergunto. Ela explode numa risada e joga as costas na minha cama.
– Eu, que sempre encarei a corda-bamba como projeto de vida, quem diria, estou perdida – ela continua despejando esse monte de merda, só que agora não a interrompo mais, deixo a garota desabafar, quem sabe assim eu descubro alguma coisa. A detestável versão bêbada de Juliete continua: – Santiago, sabe, qualquer outra na minha situação estaria num divã, ou na cobertura do prédio mais alto da cidade, ou se lamentando no colo de um de seus cabeleireiros. Já eu, estou com uma mala malfeita no banco de trás do meu carro, com destino a lugar nenhum.
– Você pode ficar aqui... – acendo a luz.
– Pensando melhor, vou sentir medo do quê? Não vou virar indigente, com duas ou três ligações arrumo um quarto para ficar.
– Fica comigo. Digo, aqui, no meu apartamento. É meio apertado, eu sei, mas isso...
– Não – ela me corta afiada, como se meu coração fosse um legume qualquer. – Quer dizer, não quero que o Maurício venha atrás de mim com aquelas neuras dele, perguntando se eu dei para outro, ou fazendo escândalos para que eu volte para o lugar que ele acabou de comprar para nós, em seu nome, sem me convidar a achar alguma coisa sobre isso.

Não estou entendendo patavinas. Por que aquele bosta apareceria aqui? Que lugar ele comprou? Que porra está acontecendo, afinal? Guardo minhas perquirições só pra mim, no entanto.

– Porra, tenho vinte e quatro anos, uma vontade louca de surfar na Austrália...
– Você surfa? Porra, que legal...
– Cala a boca, eu estou falando! Sou jovem demais para sonhar em casar.
– Casar?