» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(032)

Eu desmanchei o rolo com Marcela e, simultaneamente, Juliete – ó, grande novidade – sumiu. A diferença no desaparecimento é que dessa vez parece que a coisa foi mais séria, a julgar pelas ameaças de morte, os pontapés e as cusparadas na cara com as quais fui diplomaticamente presenteado numa rua deserta próxima à minha casa. Ela sumiu de todos.

– Onde está minha namorada?
– Se você não sabe, como eu vou saber? – digo, com um gosto ferroso esvaindo no canto da boca.
– Eu sei que vocês andam se encontrando pelas minhas costas! – ele diz.
– Não, você não sabe – retruco.
– Como assim, “eu não sei”? Por que eu não sei? Porque você não andam se vendo ou porque eu ainda não descobri nada?

Eu fico levemente confuso, e parece que o playboy está me dando a chance de refletir e ponderar a fala seguinte, pois por alguns instantes ele para com seus petelecos hostis.

– Simplesmente não há nada o que descobrir! – vou na resposta certa, a menos honesta, mas a que me absolve de uma hemorragia interna. Nessas horas o instinto de sobrevivência esmaga a ética com o polegar.

Após a breve e contraproducente audiência com o namorado traído, chego em casa arrebentado e raivoso. Me sirvo de uma dose de Domecq com coca sem gás e desconto no meu quitinete. Quebro coisas que não estava usando mesmo, derrubo pilhas de livros para o chão, cuspo nas paredes e vou distribuindo socos e voadoras marciais pela pouca mobília, como se em cada canto houvesse um pedaço de rosto daquele chifrudo cretino. A vida é injusta e inconstante – numa noite você está entre as coxas de uma garota maravilhosa e três noites depois está jogado num beco, sangrando ao léu como um indigente – e eu não consigo entender.

Mas, apesar da ardência dos machucados em contato com o oxigênio, agora não estou nem um pouco arrependido. Aliás, estou um pouco, sim. Eu devia ter jogado tudo naquela cara nojenta dele: “É isso mesmo que você ouviu, seu babaquinha otário, eu comi sua namorada, engole essa bonitão, quem é o garanhão agora?” Mas, embora a garota nem sempre mereça, eu precisava protegê-la, então não fiz. E se ele estava se baseando apenas numa fagulha de fumaça para me espancar, acho que me cortaria em pedaços, desovaria num terreno baldio e me atearia gasolina se a conversa pegasse fogo. Às vezes a covardia é uma boa saída.

Quando fui pra cama com ela, outra e outra e mais uma vez, eu não pensei nas consequências. Mas e daí? Nenhuma ferida vai durar mais tempo que o cheiro dela na minha cama.

***
Estou mais calmo agora, mas não muito. Apenas acho tão engraçado quando as propagandas de tênis ou de anti-transpirantes ou de cervejas dizem que você é um vencedor, que você nasceu para brilhar como uma estrela. Será que as pessoas não percebem que a vida é composta por essas pequenas humilhações e insucessos sociais? Que a felicidade é uma pequena alucinação entre uma coisa e outra? Ou vai ver essas coisas só acontecem comigo e você precisa se chamar “Santiago” pra perceber que nenhuma loira esbelta de biquíni te dá mole só porque você está segurando a porcaria de uma latinha de cerveja igual a do comercial. A gente devia processar essas agências e essas grandes corporações imbecis que fazem pilhas de dinheiro vendendo todo esse parque de diversões encantado.

Esta é a razão pela qual as pessoas acreditam em Deus, ou porque eu quero ser um famoso e bem-sucedido escritor, ou porque você está correndo atrás disso que você está correndo atrás. Nós simplesmente não conseguimos levar os dias sem a ideia da justiça nos vingando em algum momento; que algumas pessoas vão para céu e outras para o inferno, que algumas pessoas serão chefes de alguma repartição na Microsoft e outras vão apodrecer na sarjeta. Só que é tudo mentira, as ações não geram reações, nem todo crime tem castigo, os bumerangues não voltam para nossa mão, gentileza não obrigatoriamente gera gentileza, na maior parte apenas ingratidão ou uma gorjeta que mal dá para um pingado. Aceite isso. Lide com isso. Eu sei que é o que os livros e os filmes e as propagandas estão tentando nos empurrar, mas ninguém está aqui de brincadeira à procura da felicidade. Estamos apenas fugindo das pequenas humilhações diárias, quando não das grandes. Estamos correndo da nossa incapacidade de conseguir um amor, um bom emprego, ou simplesmente a paciência do cretino buzinando na sua traseira, só porque você não arrancou seu carro neste meio segundo de semáforo esverdeado.

Você pode me achar meio pessimista, mas tudo bem. Me desculpe se não consigo ser nada muito longe disso com a cara toda ensaguentada. Só estou querendo mostrar a você que existe um grande motivo para nada dar certo: a vida é uma porcaria – já ouvi algum budista na tevê falando sobre isso, só que num tom mais eufemista e sereno, sem essas palavras feias e apocalípticas que estou usando. Sério, não importa a lorota que contaram a você e você acabou caindo. Essas pessoas com certificados da Microsoft e diplomas da USP tiveram bons mentores, grandes instrutores de carreira, gente de visão, capazes de antever como uma paixão não-correspondida pode foder com a sua vida no futuro. Deveria existir algum programa governamental a fim de catalogar os indivíduos sensatos devidamente, os vencedores e os fracassados, quem sabe através de enquetes (“Então você tem 25 e mora neste quitinete? Hum. Alguma desilusão amorosa recente?”).

Conhecendo quem são essas pessoas, esses maiúsculos Grandes Vencedores, bem, talvez pudéssemos mapear melhor nossa força de trabalho, os departamentos de recursos humanos poderiam desprezar os rejeitados e aí sim, venderíamos o Brasil como legítimo país do futuro, comandado por gente que nunca se envolveu com uma Juliete, aliás, sequer sentiu o cheiro de uma. Por que você acha que a Coreia do Sul saiu de uma famigerada guerra separatista rumo à plenitude de figurar entre as grandes potências econômicas em questão de 50 anos? Porque não há Julietes por lá. Você pode encontrar, sei lá, uma Ryu ou uma Kil-Ja. Nunca uma Juliete e toda sua capacidade de devastação. Julietes são um atraso. Os coreanos, esses sim, são felizes e funcionais.

Olhe em volta no seu escritório ou onde mais você trabalhe, de toda forma não deve ser muito diferente do clima lá no Sta. Gemma Café. As pessoas destroem a própria espécie com maledicências nos corredores, reclamam do mau uso do toner, depositam toda sua confiança em barras e barras de chocolates Hershey's estrategicamente engavetadas, se arrastam pelas horas com seus corações amputados, aguardando serem comissionadas por suportar o universo. O amor sim, deveria vir descontado no contracheque – quem precisa de plano de saúde quando sua única enfermidade é a solidão?

***
Acho que estou convalescendo de uma reação alérgica-freudiana do universo, aquela vontade de que todo mundo sente de ser despachado de volta ao seio materno quando está com algum problema adulto. E parece que a intuição materna da minha, a duzentos quilômetros de distância, está com as manutenções em dia, pois a velha acaba de me telefonar. Atendo quase aos prantos, como se fosse aquele mesmo menininho de 1987 sôfrego de bronquite a cada 20 dias, só para chamar atenção. Mas consigo disfarçar as fungadas com um suposto resfriado.

– Filho, eu preciso de você aqui. É urgente.
– Aconteceu alguma coisa?
– Aconteceu, Santi.
– Você está morrendo, mãe? Ou é algo com o Rubens? – Rubens é o namorado bêbado, escroto e fanfarrão da minha mãe. Um sujeito simpático até, mas eu não me surpreenderia se ele tivesse algum problema hepático letal para revelar num jantar em família.
– Não, não, nós estamos bem. Não se preocupe. Mas é um caso de vida ou morte, podemos dizer.
– É dinheiro? Porque se for, eu não...
– Não, criatura! Não é nada que possa ser resolvido pelo telefone.
– Mas, mãe – tento negociar, secando o choro para que ela não perceba. – Eu não posso largar meu trabalho e simplesmente pegar um ônibus para Pelotas, assim, sem mais nem menos, ou ao menos um motivo esclarecedor.
– Dê um jeito. Espero você amanhã de manhã na rodoviária. Eu sou sua mãe, faça o que estou mandando, Santiago. Ou então vai se arrepender para o resto da sua vida – ela diz. Grande áfrica, como se eu não vivesse arrependido e já não tivesse razões substanciais para me sentir culpado o tempo todo, e para o resto dos meus dias medianos.
– Tudo bem, mãe. Estou a caminho.