» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(016)

– Por onde você andou, porra? O que é isso no seu nariz? – assim me cumprimenta Marcus, abrindo a porta e logo perfurando a sala de estar.
– Não é nada. Andei por aí – eu devolvo, dando os ombros e indo atrás.

Ele e Joel me chamaram para a simbólica e assídua cerveja dominical, na sacada do apê do Marcus. É quando nos reunimos para debater assuntos importantes, ou seja, garotas. É aquela pedida de sempre: contamos vantagens uns aos outros, medimos o alcance das nossas mãos, línguas e outros apetrechos fálicos naquela semana, maquiamos um pouco nossos feitos, revisamos nossos alvos e objetivos. Só que hoje eu não estou muito na onda. Garotas, ou a falta delas, tem sido um grande ônus para mim.

Na contramão, Joel e Marcus estão eufóricos, com os olhos injetados e fedendo a fumaça choca, fragrância inerente aos solteiros fanfarrões – embora Joe seja apenas um impostor, até onde sei ele só estava dando um tempo com Marta, a namorada glacial que ele arrumou e agora vive tentando comer sem sucesso. Mas, sabe como é, tem uma frase de um escritor russo (eu acho que era russo, e eu acho que era escritor) que explica essa energia deles muito bem: o barril vazio faz mais barulho que o barril cheio. Ou troço assim.

Ouvindo os dois falarem, e trocar miúdos apenas nesses circuitos de gente que não consegue, por uma razão ou outra, engatar um romance digno de ficção, faz sua vida parecer um filme pornográfico e mal-acabado: falta dinheiro para pagar as atrizes e os diretores não sabem direito onde nos mandar enfiar os troços. Mas meus amigos, nesta sacada de segundo andar, com a lua de domingo lentamente dando as caras, numa rua transversal quase esquina com a General Lima e Silva, estão abastecendo suas próprias ilusões a respeito disso. Enquanto lá embaixo, os passantes vão e vêm, voltando pra casa dos seus passeios no Parque Farroupilha, escapando ao máximo da televisão.

Marcus, com todo seu poder persuasivo de comedor de esposas, está compelindo Joe a acreditar que a cidade (e o planeta) é feita só desse tipo de gente: mulheres perdendo o glamour atrás de um pau amigo, interioranas devassas berrando putarias com sotaque, corretoras de imóveis que trabalham também como putas ao apresentar apês vazios, casadas infelizes discando o 193, fêmeas com sede de uma gozada na cara, capitãs de surubas universitárias ruidosas e caligulares, e outros estereótipos grotescos e hiper-sexualizados. Juízo típico de quem não sabe lidar com o X-Vídeos.

Já tive minha cota de garotas para sacar que não é bem assim. Nem de longe o dilema é cuspir ou engolir, a maioria sequer enfia a boca naquilo – e não deveriam mesmo, se você parar pra pensar. Ainda há muitas dormindo com seus bichinhos de pelúcia, sem fortes motivos para manterem-se depiladas, confiando à toa na conversão desses garotinhos levados – como nós, diga-se – em homens de verdade, desses que as mulheres esperam a vida toda, capazes de gerir seus próprios sentimentos. É uma grande injustiça, elas amadurecerem mais cedo. Pobres coitadas, estão lá, esperando serem amadas por sujeitos prematuros que ainda ficam admirados diante do fogo.

Tenho certeza que ainda podemos ser amigos, mas não estou mais sabendo como viver assim. Não digo isso a eles, claro. Hoje não estou muito a fim de sermão. Anda meio impossível conviver com Joel, Marcus e qualquer outro homem. Daqui a pouco eles vão planejar uma seita para cultuar o uso do bigode ou iniciar um recital com todo o lirismo das memórias de guerra do Charlie Harper.

Tomado por um espírito heroico e altruísta, quase robin-woodiano, resolvo participar querendo saber algo deles.

– O que vocês acham dessa coisa de amor?

Eles calam suas asneiras e gabações, quase cospem o líquido de volta para suas long-necks e ficam horrorizados, me encarando como jogadores de rúgbi do time adversário. Como se eu tivesse acabado de contar-lhes, sei lá, que acho o Jude Law lindo ou que sinto tesão pelos seios da minha mãe.

– Lá vem você com estes papos estranhos! – Marcus, como líder conservador, claro, é o primeiro a se manifestar.
– Eu acho que o amor é o pão que o diabo amassou – diz Joel, sob forte efeito de uma dor na alma.
– Porra, custa transparecer um pouco de gentileza, cortejo e sensibilidade? Precisamos superar essa vaidade, já estamos chegando nos trinta – defendo minha tese, sem muitas expectativas.
– Eu não quero mais falar sobre isso. Já falei o que queria falar – diz Joel.
– Sim, usando uma frase minha – digo a ele (eu vivia repetindo isso, aquele lance sobre amor-pão-diabo, talvez a expressão não me sirva mais, ele pode ficar com ela e tomar proveito). – E você, Marcus? – eu pergunto, me dirigindo ao outro.
– Eu? Bem, eu achei que você tivesse passado o fim de semana papando aquela morena psicótica que estava te perseguindo.

“Papando”. Que horror. Bem do Marcus. Mal sabe ele que o papado fui eu. Mas isso não vem ao caso.

– Ela não é esse tipo de garota – digo, meio incerto disso.
– Tá bom. Só existe um tipo de garota, Santiago. Vou precisar explicar tudo de novo? Jesus! Você parece uma criança com dificuldade de aprendizado, precisa ser observado o tempo todo.
– Talvez você só tenha conhecido um tipo de garota. O mundo é maior que essa rua, se você não sabe.
– Caramba, o que aconteceu contigo? Anda escutando Boyz II Men? Stevie Wonder? Pior, pior, como que é, Bon Jovi? – ele solta um riso inconveniente e Joe o copia, meio tímido.

Não, não, só Tom Waits, Neil Young, Leonard Cohen, Bob Dylan, Paul Weller, Elvis Costello, Todd Rundgren, o de sempre. Isso não tem nada a ver com canções. Rá!

– Não. Eu só estava tentando dar mais elasticidade à nossa conversa. Você nunca se apaixonou de verdade? Nem na primeira série? Por uma capa de Playboy, que seja.
– Não, cara. Com seis anos eu já tinha tesão pela She-Ra. Como é isso? – ele me questiona fingindo interesse, como se eu fosse perito no assunto.
– Sei lá.
– E como isso tem contribuído para sua vida? – Marcus não consegue debater sem parecer didático, debochado e incorruptível.
– Não sei.

“Sei lá” e “Não sei”. Acho que este tem sido eu, no último mês. A confusão personificada. Na minha grande chance de falar sobre o assunto, tudo que tenho é um reticente “Sei lá” e um aéreo “Não sei”. Lindo.

Não deixam de ser boas perguntas, de toda forma. Só que eu não sei mesmo. O papo estranho morre aí, oficialmente. Está na cara que eles não estão prontos ou, até o momento, não beberam cervejas o bastante. E após este breve lapso ursinhos-carinhosos de minha parte, ao som de The Clash, voltamos a falar sobre garotas; e eu os acompanho agora com certa disposição e humor. Saio de lá testosteronicamente revigorado, com uma lista de fêmeas que estavam me dando mole no último outono e tornaram-se apenas números inanimados no meu telefone.

Quero vê-las todas, se possível ao mesmo tempo, cansei da vida me dando porrada na cara. E repassando minhas possibilidades, o que eu descubro? Que já tive ciclos melhores, mas agora até não estou tão mal.

1) Desirée ou Danúbia, não lembro (aquela do supermercado): ela estava girando aquelas gôndolas cheias de edições pockets, quando perguntei se eu poderia ajudar. Como não viu nenhum crachá no meu peito, indagou se eu trabalhava ali. Neguei com veemência e aí ela pôde me achar interessante. Ganhei oito dígitos de presente, para usar como quiser. Está vendo como a literatura pode modificar a vida desértica de uma pessoa? Bem, eu disse que ia ligar e nosso relacionamento acabou aí. Ficou na minha cabeça, martelando como uma música da Shania Twain. Temos que retomar isso.

2) Garota-Barista-do-Juno’s Pub: não tirou os olhos de mim enquanto eu cantava “Horse With No Nome” no karaokê do pub, na semana que prefaciou o inverno. Ruiva, cabelos até a lombar, corpo esguio, tem sardas na ponta do nariz, rosto ossudo e triangular, sorri com os olhos arqueados. Usa gírias demais e tem uma tatuagem sexy na cintura. Parecia uma girafa – a tatuagem, não a garota.

3) Francisca: uma prodígia de 19 anos, aspecto sujo como uma jovem nômade francesa, usa saias compridas demais, tem os cabelos mal cortados, mas está sempre com o sutiã à mostra. Tem os olhos verdes mais profundos que eu já vi, feito dois vulcões ativos do Equador. Faz teatro e ama Tennessee Williams. Coxas roliças e belas axilas.

4) Nina: uma ex-garçonete do Sta. Gemma demitida há uns dois meses por não dominar a matemática básica, embora tirasse notas altas em todos os outros atributos essenciais a uma garçonete, se é que você me entende. Talvez ela não guarde nenhum ressentimento e compreenda as leis do mercado. Um metro e cinquenta e dois, cabe na palma da minha mão.

Então é isso, eu sei exatamente por onde começar: Juliete nunca mais.