» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(042)

Acordo antes do despertador. Ao recuperar a lucidez, estou encolhido e babando no braço aveludado da minha poltrona reclinável, e o clarão da rua insulta meu rosto amassado. Ainda estou onírico, mas aconteceu de verdade. Tábata e seu cão bege passaram a noite aqui, na minha própria cama que eu mesmo ofereci atenciosamente. Mas já se foram sem se despedir ou deixar maiores rastros, exceto um fedor de cachorro molhado na minha cama, que posso estar sendo injusto ao confundir com as toalhas úmidas que diariamente atiro sobre o colchão. Não estou surpreso por não ter acontecido nada de excitante, mas sim por eu ter feito uma amizade do nada.

Uma ducha me melhora. Dou um gole de suco de laranja, escovo meus dentes, minha gengiva sangra um pouco. Espio meu reflexo no pequeno espelho dependurado num prego acima da minha pia e organizo minha cara do jeito que dá. Já estou pronto para uma jornada servindo cafés e tortas e sanduíches para aqueles clientes ditatoriais do Sta. Gemma Café.

Não preciso correr muito, porque agora Rafaela faz o que eu fazia. Ocupo agora um cargo que ainda não sei direito para quê serve e o que eu devo fazer, apesar dos montes de treinamentos especiais e palestras técnicas que andei frequentando nas últimas semanas. Só sei que tenho mais tempo para as coisas que importam de verdade, como escrever putaria e olhar vitrines. No fim das contas, apenas sei que tenho o dever de entregar o caixa batendo com os pedidos.

Pego carona com o sol da manhã. O cheiro da rua é tão triste.

***
Como agora sou o senhor do meu tempo, bebo lentamente meu café enquanto folheio uma edição do Correio do Povo na ante-sala da copa. Pessoas morreram num acidente de carro, o governo anunciou uma nova medida para turbinar as exportações, o cronista do dia, as palavras-cruzadas, o encarte de cultura com os shows internacionais deprimentes que eu não tenho grana pra ir de toda forma. Grandes merdas. Sempre a mesma coisa. Pelo menos, o dia começa com uma história diferente para contar para Rafaela, os fregueses costumeiros, as garçonetes e também a proprietária, se por acaso ela aparecer aqui. De resto, o mesmo cotidiano ordinário.

Mas aí:

– Dá pra me explicar que bosta é esta? – ela atira um livro com brutalidade contra o meu peito, que depois se espatifa no chão.

Eu declino o queixo, olho para o livro de capa fosca aberto e escangalhado sobre o assoalho, e finalmente para a feição tétrica de Juliete. Ela está diferente. O cabelo está enrolado numa espécie de bandana lilás, cool e europeia, o rosto mais pálido, as sobrancelhas mais escuras e delineadas, o quadril mais cheinho de comer crepes cobertos de calda de amora e queijos fedorentos, uma saia longa e um casaquinho curto de marca boa. A garota aparenta, não sei, um pouco mais de essência; mas se bem a conheço, pode ser tudo jogo-de-cena.

Não sei sobre que porra ela está falando, mas não é isso que me atordoa. Como pode, de um minuto para o outro, o mundo deixar de ser banal? Por que algumas pessoas tem essa capacidade de produzir esse efeito de impulsionar nossos níveis anímicos?

– Que maneira triunfal de reaparecer, mademoiselle. Se é que é você mesma, e não uma alucinação matinal de quem dormiu só duas horas – digo tentando soar amargo, mas a verdade é que encontrá-la me alegrou desgraçadamente. Ela faz uma careta e um gesto umbral o qual traduzo como “Mas é claro que sou eu, o que você esperava?”
– Vamos deixar o protocolo de lado. Eu voltei. Eu senti saudades. Você continua aí, na mesma, sentindo minha falta. Certo. Mas e então, rapaz? QUE MERDA É ESSA?

Ok, vamos à merda. Pego o livro do chão e o examino com cuidado. A capa de escala cinzenta mostra uma mulher sozinha à noite friorenta na beira da estrada, acompanhada por uns farois difusos típicos de metrópole. Ela parece imoral, chateada e buscando escapar de algo ou alguém, não dá pra afirmar. Mais ao topo, uma inscrição num vermelho gélido e vulgar diz Juliete Nunca Mais. Fito-a bem no meio do rosto e dou de ombros.

– É o que é, ora – largo a brochura no balcão, com desdém.
– É o seu livro, não é? Comprei numa livraria do aeroporto em São Paulo e li várias partes durante a viagem. Eu conheço bem esse enredo e esse manuscrito. Sou eu nessa história, só que menos neurótica e encrenqueira, claro. Só não estou entendendo: por que você assinou como “Yalon Boloni”?
– Porque foi ele quem escreveu.
– Mas que mentira! Quem é esse cara?
– Você está de farra, não é? Todo mundo conhece Yalon Boloni.
– Eu não!
– O cara das peças de teatro? Dos roteiros para a televisão? Daquele livro que a gente é forçado a ler para as provas de vestibular? Yalon Boloni! – dou pistas mais do que claras, contudo Juliete insiste em franzir a testa, denotando estranhamento, indiferença e deficiência cultural.
– Não me interessa quem é esse bosta. Como ele roubou seu livro? Olha, eu vou meter um processo nesse cara que não vai sobrar uma cueca...
– Cala a boca, Juliete! – interrompo seu festival de bravatas. – Eu vendi a porra do romance, entende? O cara estava num infernal bloqueio produtivo e acenando com um cheque gordo no meio da rua. Eu passei e peguei.
– Quer dizer que foi isso que você fez com a melhor oportunidade que o mundo te deu? Ou melhor, eu te dei!
– Azar – murmuro. – E outra, você nunca encontraria numa prateleira de aeroporto um romance assinado por um tal ignóbil de Santiago Ventura. Quem gastaria uma nota numa porcaria dessas? Acorda, garota. As coisas não são como deveriam ser.
– Ah, nem vem – ela me rechaça. Está possessa comigo. – Você tinha o dever perante a si e seus amigos e sua mãe de, putz, ao menos tentar sair dessa espelunca de café.

Os clientes olham na nossa direção e depois analisam em volta, do parquê ao lustre, para ter noção em que espelunca de café eles se enfiaram a uma hora dessas da manhã. Alguns até erguem o dedinho pedindo a conta.

– Você está apavorando meus clientes.
– Fodam-se seus clientes! – ela está espumando de tão puta. Eu olho para os meus fregueses e sorrio polidamente.
– Sem dramas, pode ser?
– Sem dramas? Sem dramas? Santi, você tinha um sonho, uma coisa que eu nunca tive na minha vida. Sério, eu tenho um jet-ski, uma banheira de hidromassagem a dez passos da minha cama, todos os aparelhos já lançados pela Apple. Montes de coisas. E quer saber? Tudo tralhas materiais que só servem pra tirar espaço no meu quarto e me fazer tropeçar. Eu trocaria isso tudo por um sonho, um sentido para existir. Cara, antes você era um fracassado, mas pelo menos eu te admirava e te respeitava, porque você era sonhador. E agora que você assassinou o sonhador que havia dentro de ti, só consigo ver o fracassado na minha frente.

Antes de dar as costas, me lança um último olhar de descrença. E vai embora, fechando a porta de vidro do Sta. Gemma Café atrás de si. Olha, se eu estava esperando pelo dia perfeito pra me jogar num rio gelado e morrer hipotérmico e afogado, é hoje. No duro, eu só não caminho cinco quarteirões e me atiro no Guaíba porque detesto sentir frio e a água é podre. Fora isso, não tenho a mínima ideia de por que insisto em continuar vivendo. Eu faço tudo errado.

***
Eu sei, minha existência foi apequenada e reduzida a humilhação, terror e angústia. Ainda assim, ver a garota novamente foi bom – e irresistível e delicioso, como futucar naquela casca grossa e seca de um furúnculo nojento e infeccionado, que só depois você percebe que não estava pronto para ser coçado com tanta virulência, e então recomeça a vazar sangue misturado com pus. Mas a gente não aprende jamais.

No transcorrer do dia a empolgação foi se transformando em sudoreses manuais, rejeições estomacais, traições memoriais e maus pensamentos assoladores que eu até consigo controlar um pouco, mas não tudo. Ao menos me impediu de cair no fosso de tédio e banalidade que encontro toda vez ao chegar em casa com a noite prosperando. Às vezes parece mesmo que aquele cara que dormiu com ela várias vezes morreu, escapuliu, não existe mais.

Óbvio que eu estava de palhaçada quando cogitei a questão do suicídio logo cedo. Mas é claro que eu não estou a fim de acabar com tudo, não desse jeito, não de contribuir ativamente para isso. Só que, mesmo assim, posso ver que vou cruzar a madrugada de vigília remastigando toda a merda que fiz, roendo unhas e repassando o diálogo na minha cabeça, e refletindo sobre o que eu poderia ter feito ou que eu posso fazer de agora em diante, afinal, para agradar Juliete. E se eu tivesse tentado eu mesmo publicar aquela estória? Onde eu estaria? Quem eu seria? Seria ninguém, mas com um livro publicado fazendo fiasco nos estoques de livrarias por aí, eu desconfio.

Talvez eu não acabe comigo, hoje. Mas isso não significa que vou escapar ileso. A real é que estou fodido por todos os lados, pela esquerda, pela frente e por trás; e provavelmente vou me roer de culpa, impotência e arrependimento até cair no meio do meu quarto, fulminado por algum tipo de câncer que dá de repente e te destrói em apenas um dia. Não sei se os oncologistas já descobriram algo assim, mas, se o meu nódulo fatal for o primeiro, dessa vez não abro mão de que leve meu nome.