» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(025)

Eu poderia dizer que a vida é maravilhosa, mas não é. Pela manhã recebi um torpedo da Alice, uma amiga minha que é jornalista e mexe com alguns círculos culturais na cidade, e também tem um programete numa rádio local onde executa músicas sobre amor e responde as ouvintes que estão com algum teorema afetivo. Ela é legal, a Alice. Na mensagem dizia que ela precisa se encontrar comigo pois tem um trabalho como escritor para mim. Isso não é fantástico?

É. E eu me sinto tão confiante que aproveito a onda radioativa de otimismo e vou direto ligar para Danúbia ou Desirée, não sei, a moça aquela que esbarrei no Zaffari e fiquei de telefonar, há uns seis meses, lá longe. Para minha surpresa, atende uma Dafne. Quem diabos é Dafne? O que aconteceu com Danúbia ou Desirée? Poxa, eram nomes tão sexies e femininos, nomes de garotas com quem você sonha casar, um dia. E agora isso, Dafne. Não quero me casar com uma Dafne. No máximo, esse nome me serve de companhia para o caso de eu querer desmascarar algum fantasma. As pessoas não deveriam trocar de nome assim, sem a aprovação das pessoas que podem vir a telefoná-las para um drinque no futuro.

– Olá, Dafne – eu digo o nome dela num tom abaixo, audivelmente decepcionado.
– Quem fala?
– Não sei se você lembra de mim.
– Não, não lembro – ela diz, rude. Talvez ela esteja preocupada com o sumiço do Scooby Doo e não é uma boa hora para ligar.
– Peguei seu número há uns seis meses. No supermercado. Você estava indecisa entre levar o O Grande Gatsby ou Franny & Zooey e eu ajudei você. Meu nome é Santiago. Santiago Ventura.
– Ah, sim. E aí você fingiu trabalhar lá e ofereceu ajuda para conseguir uma trepada.
– Bem, foi mais ou menos isso – eu digo, encabulado, mas sem perder a pose. Ela não parecia tão rabugenta e direta naquela oportunidade, deve ser efeito de algum monstro, ou gnomo, enchendo o saco dela.
– Meio tarde pra ligar, você não acha?
– Bem, sabe como é – eu falo, só que nem eu mesmo sei, não vejo por que ela deveria saber. Na continuação, eu invento uma história: – Eu andei meio doente e só agora estou bem. – Que bobagem! De onde você tirou isso, seu imbecil? Garotas não saem com caras doentes, bem, não clinicamente doentes, pelo menos.
– Bom, você poderia ter me avisado. Eu queria muito sair contigo. Eu gostei de você.

Que coisa mais linda. Com dez minutos de relacionamento (cinco no supermercado e mais cinco com essa ligação) já estamos discutindo o rumo que as coisas tomaram. Isso não vai dar certo. Aposto que se ela fosse Desirée ou Danúbia, tudo seria menos complicado e pesado, mais leve e fluido. Agora, essa Dafne aí me parece meio pancada das ideias.

– Bom, vou dar a você uma chance – ela diz. – Mas porque você teve atitude da primeira vez. Acho que você tem potencial, tem salvação, merece ser lapidado. Você conhece o Santa Bárbara? O bar. Estarei lá com algumas amigas, para uma pequena comemoração, a partir das nove horas de amanhã.
– Da noite? – pergunto.
– É claro! Você pensa o quê, que vou a bares às nove da manhã? Que tipo de mulher você acha que sou? – ela diz, raivosa. Bem feito pra mim.
– Certo. É que eu entendi “às nove horas da manhã”, mas tudo bem. Sei qual é o bar. Como diz o Bon Jovi, estarei lá – eu digo.

Ela não acha graça. Socorro, alguém viu o senso de humor por aí? Ou minha criatividade? Qualquer um serve.

Sei qual é o bar. É um boteco patético e esquizofrênico, que pensa estar localizado próximo à Lapa carioca, e lá servem bebidas em copos de requeijão e é cheio de mulheres divorciadas que se reúnem todo mês para falar mal dos seus ex-maridos, das suas grossuras e comprimentos, e da falta de preliminares hoje em dia. Talvez elas façam rituais de amaldiçoamento e embargo ao sexo oposto enquanto bebem Chardonnay e recitam trechos revolucionários de Jane Austen. Onde eu vou me meter? Não sei. Mas eu preciso me meter em algum lugar, é assim que as pessoas acabam se encontrando.

Dafne, Dafne, Dafne. Preciso memorizar esse nome. E não fazer piadas com ele, se quiser sair vivo de lá.

***
Às vésperas da noite, Alice vem até o Sta. Gemma Café e me explica o lance do trabalho como escritor. Estou animado, quem sabe uma segunda ocupação me faça pensar menos em boceta. Estava mesmo necessitado de algo a se utilizar os neurônios, quem sabe assim eu paro de sobrecarregar minha virilha. O que é, um folhetim? Eles abriram espaço dominical para uns poemas? Uma coluna para escrever sobre os romances que eu levaria a uma ilha deserta, se fosse obrigado? Não seria de todo mau se eles me largassem num arquipélago com alguns exemplares do Tolstói, do George Orwell, do Thomas Mann. Ao menos eu ficaria em paz e nem precisaria de uma bola Wilson. Contanto que me paguem, claro.

Não é nada disso. Bom, parece que o mago-esotérico, ou troço assim, que atende os interesses do jornal onde Alice é editora-chefe caiu da bicicleta elétrica, quebrou os dois braços e agora não acredita mais no Cosmos. Ela quer que eu escreva os textos para os horóscopos. Ó, céus.

– Quanto?
– Cento e vinte por semana – diz Alice. – Sabe, é um trabalho diário, há gente que não sai de casa sem ler o que você vai escrever. É uma grande responsabilidade.
– Nem me fale. Tudo bem, fechado. Onde eu assino?
– Não tem assinaturas. É temporário. Até encontrarmos outro astrólogo. Você acredita em horóscopo?
– Mais do que em qualquer outra coisa. Se a gente não levar fé no que eles dizem, vamos crer no quê?

A gente ri e brinda com café passado, sem açúcar. Não é o emprego dos sonhos, não é A Grande Chance, é só um serviço temporário para um jornal gratuito que eles distribuem no metrô e depois recheia as latas de lixo. Não é como se eu fosse tradutor contratado de uma editora multinacional ou crítico de alguma das parcas revistas de literatura disponíveis no país do analfabetismo funcional, e muito menos escrever meu próprio primeiro grande romance. Mas a gente precisa retomar o percurso de algum ponto. Quantos de nós temos o trabalho perfeito, uma carreira de sucesso ou estamos satisfeitos com nosso chefe? Quase nenhum, se tomarmos como alicerce a dura realidade, e não os discursos esperançosos de paraninfos, ou os anúncios de cursos pré-vestibular que aparecem na televisão, ou o último livro de autoajuda do último personal coach americano mais vendido.

Que dia. Arranjei uma atividade chata que vai me render mais uns 500 mangos pra gastar em livros e alugueis e prestações de tevê a cabo e jaquetas em liquidação, ou mandar mais dinheiro para minha mãe em Pelotas. E para amanhã à noite, cairei de paraquedas num encontro que se afigura bizarro até o momento, com uma caçadora de fantasmas mal-humorada, participante de um movimento feminino que nada tem a ver com o dos quadris. Aliás, no telefone ela me pareceu frígida a ponto de se duvidar que a garota produz saliva normalmente.

Eu vou sobreviver a essas duas situações, posso apostar. Não é nada de mais, são apenas bobagens. O que me incomoda e me deprime é que essas duas poucas coisas me estimularam de uma maneira que eu posso sentir o cheiro da adrenalina enferrujada se locomovendo nos meus neurotransmissores. Isso me mostra que, a passos de formiga, eu ainda posso chegar a algum lugar. É uma época importante.