» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(040)

Chegou para mim hoje, por correio.

Santi,

Como vão as coisas por aí? Espero que bem. Você é um rapaz bacana, e eu sempre torço para que você esteja bem. Sim, sim, eu poderia ter escrito um e-mail ou deixado uma mensagem no seu perfil do Facebook. Mas você merece uma carta à punho. E além do mais, estou em Praga agora, e os teclados dos computadores daqui não me ajudam em nada. Você recebeu meus postais? Enviei de Lisboa, depois de Barcelona, Madrid, Paris, Berlim, Londres... Tomara que tenha gostado. Como eu disse, estou na terra de Kafka agora, parece realmente que estou passando por uma espécie de metamorfose.

Não tenho um motivo especial para escrever, e acho que nem deveria estar fazendo isso. Nossa última conversa foi meio conturbada e a parte boa de uma carta é que se você quiser retrucar alguma das minhas explicações, isso vai levar aí uns vinte e cinco dias. É a maneira perfeita de dizer umas coisas sem ter a boca calada por uma de suas intempestividades e expulsões que me me partiam ao meio, fazendo minhas frases prontas se espatifarem no chão.

Escrevo, então e apenas, como uma forma de deixar registrada a minha afeição. Quando eu iria imaginar que aquele “cara atrás do balcão” seria convertido a alguém tão especial na minha vida, causando toda essa revolução em mim? Aquele dia em que entrei perturbada naquela cafeteria mixuruca e fui acolhida por você, de relance não pude ver nada além de uma pessoa comum, com nada a acrescentar, alguém que eu jamais ousaria sequer me aproximar ou ultrapassar a barreira comercial que havia entre nós. Admito que a primeira impressão não foi das melhores, te achei um pouco intrometido e chato. Mania do ser humano de julgar as aparências, e comigo não foi diferente.

Quem diria que aquele rapaz engraçado, com um charme arrogante e meio desastrado, ia aos poucos me ganhar. Como eu poderia prever que um rapaz que ninguém dá nada (desculpe, mas é verdade) pudesse me surpreender tanto e me ensinar tantas coisas? Se eu soubesse, não teria invadido aquele café, e minha vida seria bem mais fácil. Mas continuaria não sendo a minha, seria apenas uma vida sendo levada, um fantoche fazendo teatro na mão dos outros. Posso dizer, sem receio de parecer clichê, que você me libertou, como se eu fosse uma personagem da literatura finalmente publicada após 23 anos sendo escrita. Obrigada.

Lembra? Enquanto a gente praticava aquele jogo de desinteresses, cada um de um lado do balcão, seu olhar profundo foi emperrando meu raciocínio lógico e moral, não sei, era como se eu fosse um filhote de beija-flor que se chocou contra a fachada de um prédio no primeiro voo. Você, daquele seu jeito, me catou do chão, cuidou da minha asa, me deu néctar direto no bico com uma seringa, me engaiolou de porta aberta, e eu fui ficando porque eu quis. Mesmo quando eu estava recuperada e sadia, não tive vontade de te contar, ou então você me devolveria para a natureza. Por isso eu me fazia tanto de louca. Se eu me comportasse normalmente, como as outras, você perderia o interesse no enigma. Você vai me achar uma bruxa manipuladora agora, mas tudo que eu fazia era pra te dar o que falar com seus amigos no bar. Entrando e saindo fora assim da sua vida você pensaria em mim dias a fio. Eu queria ser o exemplo de garota que você teria em mente ao dizer que todas as mulheres são doidas. Pelo menos assim, quando eu resolvia voltar, você ainda não havia me esquecido.

Não digo que não fiquei mexida contigo, não vou dizer que depois daquela noite não pensei em ti. Pensei sim, mas eu decidi que só estava necessitada e vulnerável e curiosa. Porém, a semana foi passando e aquele timbre de voz não saía do meu ouvido interno, aquele olhar sujo-ingênuo paralisante ficava embaçando minha visão, aquelas conversas ficavam se desenrolando na minha cabeça. Mas esqueci, sei lá, a distância e o monte de coisas que eu tinha para estudar me fizeram esquecer.

Daí, a segunda vez. Eu estava acabada, triste, desiludida, enjoada, arrasada, sem um único lugar no mundo para enfiar meu pescoço. Entrei naquele lugar outra vez, só por curiosidade, certa de que iria comprovar a minha tese, que aquele barulho todo era por nada. Você estava lá, atrapalhado com as louças e os lixos para tirar até a calçada. O pouco que falou comigo, as brincadeiras bobas, o calor do corpo o mais próximo que eu deixava chegar perto, já me aqueceu naquela noite de inverno desgraçadamente fria. Naquele momento não entendi como pude te deixar de lado. Tudo voltou. Mesmo estressada, pude sorrir. E isso despertou dentro de mim, como um alarme dizendo que eu precisava te ver semanalmente. Naquela noite, quando retornei pra casa e agarrei meu travesseiro, senti saudades. Foi estranho.


Mas foi no aniversário de morte da minha mãe que eu tive de engolir o quanto você é um cara legal, uma pessoa especial, dessas que não se acha à toa por aí. Como você me levou até aquele lugar, o Lago da Saudade (Sabia que mesmo sozinha, eu continuei indo lá? Agora é o santuário oficial, sempre que preciso falar com minha mãe. Obrigada por isso também.) Aí o beijo repentino, minha negativa mesmo louca de vontade, mas é que eu achava que seria mais vantagem uma amizade verdadeira, já que namorado eu já tinha. E eu nem te conhecia direito, achava que você era como todos os outros (já falamos sobre isso). Um tempo depois... olha só, quem pedia beijo era eu.

O que ando mais adorando são as pontes de Praga. Elas têm um simbolismo meio sedante, com toda sua paisagem arruinada, úmida e gris. Ontem parei sobre uma e li algumas páginas de
A Identidade do Milan Kundera, e tentei me sentir inteligente como você é. Já leu esse? Tomara que sim, porque roubei da sua estante na última vez em que estive aí. Tem o cheiro do seu apartamento até a última página. Sei lá, na época eu vivia arrumando essas estratégias para te ver de novo, então torci muito para que esse seja um de seus livros queridos, assim eu seria obrigada a devolvê-lo pessoalmente. Antes de viajar, eu quis te encontrar, mas como sempre você foi arisco, e acabamos não nos falando direito. Sei lá o que eu queria. Provavelmente acabaríamos fazendo coisas proibidas outra vez. Talvez eu quisesse sugerir a você que me encontrasse aqui, eu pagaria sua passagem até. Mas conheço meus bloqueios vocais, acho que só diria tchau mesmo.

Hoje posso dizer que tomamos a decisão certa, quer dizer, você tomou. Você sabe das coisas. Acho que, como amigos, pelo menos tenho alguém para escrever e contar minhas coisas, uma amizade vale mais do que meia-dúzia de atitudes precipitadas. Estou vendo as coisas de um modo diferente, por outro ângulo, um ângulo tcheco, ha ha... Você contribuiu para tudo isso, me ajudou a encarar as novas situações, você sempre me deu força, mesmo daquele seu jeito rude e torto e reticente. Aprendi que eu posso viajar pela Europa, desistir da Psicologia se não for mesmo a minha praia, que posso me desvencilhar de uma relação quebrada.

Precisei desse tempo longe. Eu estava exausta de todo mundo falando mal de mim pelas costas, especulando minha vida aos cochichos, soprando por aí que eu não passava de uma putinha. Gente hipócrita. Até parece que fui a primeira mulher de toda aquela faculdade idiota e do mundo inteiro que teve vontade de dar para outro. Pelo menos fiz o que eu fiz porque estava apaixonada, embora essa justificativa nem vale como justificativa, tenha sido apenas meu álibi para não sentir culpa. E eu não sinto mesmo. Se sinto alguma culpa é por não me sentir culpada por aquilo, que afinal de contas foi tão bom. Se ostentar duas caras era o que eu precisava para me sentir completa, foi o que eu fiz. Claro, existem as consequências, casa que incendeia não para em pé, mas o terreno fica. Limpa-se os escombros e se ergue tudo de novo, mais próxima do que você sempre sonhou arquitetar. As pessoas têm medo das consequências, mas às vezes é o período mais fértil. Enfim. Aconteceu o que era para acontecer, o jeito como aconteceu é que não deu para controlar.

É isso, então. Acabei dizendo esse monte de coisas quando só queria mesmo dizer que gosto de ti, honestamente. Não sei se como amigo ou algo mais, mas definitivamente pelo tipo de gente que você escolheu ser. Rezo para que você tenha sorte aí com suas coisas, que você encontre alguém legal como você, que vai te fazer feliz e mostrar que o amor verdadeiro existe sim, coisa que obviamente sou incapaz de fazer. Bem, no próximo ano talvez a gente não se veja muito, pois é difícil não notar que seguimos caminhos diferentes. (Mas, juro, você vai junto comigo no meu peito, seja em Praga ou em Porto Alegre. Passe o tempo que for, nada vai apagar a lembrança daquele olhar. Profundo).

Ah, não. Porcaria! Vaca louca.

fim.