» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(039 e 2/2)

Sarah e sua motocicleta vieram me apanhar várias vezes no último mês, e acho que até que estamos nos dando bem; embora eu diga isso debruçado em parâmetros conturbados e peçonhentos, ante o último envolvimento que tive com uma garota – não quero nem lembrar aliás, então vamos parar por aqui. Trocando de assunto: Sarah é fácil. Não fácil, no sentido de, você sabe – se não sabe, ainda vai entender porquê. Ela é espirituosa, desligada, risonha, ardilosa, forte, direta, tanto que em alguns momentos tendo a achar que sou quem represento a alíquota feminina da relação, visto que ela tem uma scooter e me pega em casa e depois me larga em casa e não se preocupa com o horário previamente combinado para executar tais missões, coisa que me deixa meio puto. Só que ainda não fizemos o troço, digo, aquele ritual lascivo que as pessoas adultas e resolvidas fazem antes de decretar que se gostam e estão dentro de um lance pra valer.

Não que eu precisasse despender de muito esforço, ou que eu tivesse de vencer uma melhor-de-três na queda de braço para o negócio finalmente ocorrer e a gente mandar ver. Eu apenas sou perfeccionista para essas coisas e confesso que não estava muito seguro de que, na hora H, eu realmente teria a boa vontade de pensar nela, ainda que estando com ela. Saca? (O lado ruim de ser homem e ter duas cabeças é que, às vezes, cada uma fica num lugar, ha ha...) Bom, só que nós já tínhamos meio que agendado o contato físico usando o Regulamento do Quinto Encontro. Nós já vimos estrelas cadentes, trocamos amassos contra um muro, jantamos de casalzinho com Joel e Marta num buffet árabe, fomos a uma apresentação voz-e-violão do meu amigo Roger Birk no bar Cardinale 44, caminhamos juntos e lentamente por aí, trocando experiências de uma infância tediosa. Logo era meio que tempo de realizar uma perícia em nossas capacidades eróticas, se vocês nos derem licença.

A minha equação era bastante lógica: garota + canção romântica = x possibilidades de me dar bem. Então eu passei uma semana de John Cusack no filme Alta Fidelidade fazendo listas de músicas favoráveis. Eu não queria algo muito viril, agressivo e intrometido; você acaba se sentindo um frangote transando embalado na voz de Barry White ou de Sid Vicious. O caso é que eu precisava de algo requintado e meigo, mas não água-com-açúcar, ou seja, de sons que incitassem uma libertação corporal feminina revolucionária, entende? Então acabei indo de coisas como Cardigans, Joni Mitchell, Cat Power, Patti Smith, Fiona Apple, 10.000 Maniacs, Runaways, Alanis Morissette, Etta James, The Pretenders e também, para minha grande surpresa e alívio, um pouco de Tracy Chapman. (Que por ignorância ou desatenção passei toda a minha vida musical achando que fosse um rapaz com uma voz delicada. Mas a Wikipédia me corrigiu, então agora compreendo que estamos lidando aqui com uma moça cujo timbre é bastante robusto.)

Enfim. Eu tive amantes suficientes para estar calmo, e acho que ela pertenceu a uns três ou quatro, tirando sua idade como referência. (Tudo bem, pela idade ela pode ter ido pra cama com muito mais do que três ou quatro; na verdade ela pode contar com um histórico incluindo centenas de parceiros sexuais, se você considerar que, para uma garota viçosa, é humana e anatomicamente viável arrumar um candidato a cada semana, se ela assim quiser. Mas vamos parar com essa encheção, eu prefiro pensar em três ou quatro, cinco no máximo; com esses números me sinto mais especial e menos pessimista com a real chance não mostrar nada de muito mais impressionante do que preparar um pen-drive com algumas melodias escolhidas a dedo. Sim, sim, já sei, garotos e seus espíritos competitivos, ha ha...)

Bem, mas eu desencanei a tempo, tudo indica. Aquela coisa de let’s get it on e seja o que deus quiser, sabe? É um modo de falar apenas, tenho minhas dúvidas se deus realmente participa de tudo, sobretudo essas coisas. Sei lá. Não reparem, porque estou nervoso e um dos efeitos colaterais é não conseguir brecar o falatório. Eu só queria dizer que não sei o que Sarah efetivamente é para mim, e também acho que eu não deveria pensar nessas coisas antes do coito, perigando soar como uma adolescente perto de sua estreia carnal. É que, bem, se há um significado para Sarah ter pintado na minha frente, e eu acho que há, não pode ser mais claro. Lembra de quando os adultos diziam para não apontar qualquer estrela sob pena de crescer uma verruga na ponta do indicador? Acho que o folclore em si esconde uma metáfora: quando você foca numa estrela durante muito tempo, acaba esquecendo de admirar todas as outras milhares.

O barulho da moto na calçada, ela chegou. Foi mal, mas tenho que ir.

***
Ok, para encerrar o Assunto Juliete de uma vez por todas, combinado?

Você já tentou ler, sei lá, Ulysses do James Joyce, ou então Cem Anos de Solidão, do García Márquez? Eu também tentei e não consegui vencer o capítulo inaugural, assim como já aconteceu com dezenas de obras clássicas espalhadas pela minha estante, à espera de uma atitude persistente e determinada da minha parte. Tenho certeza que há belíssimas histórias ali narradas; mas, sejamos honestos, são livros muito densos, calhamaços difíceis de ler. Não contêm um abecedário propício para um leitor inexperiente, e você precisa ter a manha, conhecer os atalhos, possuir um vocabulário opulento, um senso dinâmico de interpretação das linhas. Assim somos, Juliete e eu.

Eu e ela somos co-autores de uma paixão aguda e insana, um caso complexo, narrado por dois “escritores” verdes. Uma história de leitura custosa, altamente abandonável. No entanto, não se engane, não é que seja ruim ou chata ou desprezível. Quantos livros você largou na juventude simplesmente porque não estava com tempo, com o espírito e a paciência, com o clima necessário para cruzar a linha final? E eram criações ruins? Talvez não. Vai ver não era o momento certo. E quem vai dizer que, no futuro – ou um dia desses, na próxima década, sei lá – você não vai esbarrar com o clássico na prateleira de uma biblioteca pública e lembrar com carinho do dia em que tentou encarar a personagem e o enredo, porém, por vários motivos – que agora nem têm mais importância – você não o fez, não foi até o fim. Certos amores também são assim, eu acho.

Ainda lembro do dia quando terminei o interminável e delicioso Grandes Esperanças, do Dickens. Foi devastador fechar o livro e novamente ser forçado a reconhecer o sofrível mundo real à minha volta, e ainda ser obrigado a conviver com ele, como um delinquente juvenil é reencaminhado ao convívio social. O que fazer com a saudade que senti de Pip no primeiro dia de sua ausência? Depois de quatro longos meses de companhia, como atravessar o dia sem o amargor de não encontrar a indecifrável miss Havisham ou com o hediondo e insalubre sr. Magwitch? Eu corria para bares, inspecionava a geladeira, trocava canais, sondava garotas e nada, nada, nada adiantava.

Na ficção, tudo parece mágico e perfeito, mas há uma grande desvantagem: não importa se o protagonista tem dezessete anos ou é um moribundo, se é uma novela ou uma trilogia; toda criação literária pressupõe um começo, um meio e um fim. Nas páginas lúcidas da vida, algumas histórias simplesmente não tem final, e há sempre consideráveis chances de uma reviravolta, pois a trama não se limita a três, seis ou dez personagens. Mais alguém pode entrar por aquela porta, agora mesmo. É o que todos nós esperamos, quase sempre.

Sabe, embora eu tenha contado tudo isso a vocês com a alma, o entusiasmo e o ardor de um exemplar grande-amor-de-livro, não é nada disso, eu nem sei se era sobre amor. Era apenas sobre um rapaz pobre que morava em Porto Alegre, trabalhava numa cafeteria, e com charme o bastante para envolver uma garota rica e perdida, com um coração e um ego frágeis o suficiente para se deixar levar. Viu? Nada de mais. Coisas assim se dão todos os dias. Eu é que tenho mania de – uns chamam de dom, outros de doença psíquica, e eu gosto de conceber isso como um estilo de vida – romancear tudo.

O que quero dizer é que, quando você tem 25 anos mais ou menos, e você ainda tem muitos capítulos à sua frente para vivenciar, as coisas não têm o poder de ser para sempre ou nunca mais. Não é assim, tão simples. Na maioria das vezes, apenas ficam suspensas. Penosamente suspensas.