» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(052)

Grandes notícias, hein? Mesmo que, se baseando por nossas feições, não pareça. Joel se trancou no banheiro, e Marcus está louco na sacada blasfemando contra os apaixonados que moram nos apartamentos frontais e cantando “Forever Young” com onze garrafinhas de Heineken na corrente sanguínea. A décima segunda cerveja do fardo está amornando na minha mão, que estou letargicamente jogado no sofá e só consigo mirar no fundilho esverdeado do casco, como se fosse um túnel do tempo. O que está acontecendo? Não sei se são esses tais novos tempos, ou o problema é o acesso facilitado ao crédito imobiliário, ou as relações masculinas de amizade. Eu pensei que as pessoas hoje em dia odiassem se casar, contudo Joe e aquela namorada ciborgue dele resolveram viver juntos.

Não se pode voltar atrás numa decisão dessas. (Joel até está com uma argola provisória enfiada num dos dedos da mão direita, diz ele que a prata significa... Ah, sério Joe? Um workshop noturno sobre a definição de cada boda numa plena sexta-feira?) Mas podemos voltar um pouco no tempo, uns quinze minutos, depois de ele anunciar com formalidade desnecessária e um riso afetado pendurado na boca: “Marta encontrou um apartamento aqui perto e acha que deveríamos morar juntos!” (Sim, isso mesmo, foi ela quem o pediu nupcialmente. Céus, onde foram parar os pobre-diabos dos homens???) Só que a reação geral não foi bem de acordo com o que nosso amigo esperava.

– Duzentos e vinte e cinco mil? Porra, um apartamento de duzentos e vinte e cinco mil? [Marcus]
– Que bacana, cara. Parabéns. [Eu]
– Vão se foder vocês dois, é o momento mais importante da minha vida e vocês não demonstram o mínimo entusiasmo. [Joel]
– Parabéns, cara! U-hu. [Eu]
– Duzentos e vinte e cinco mil? Você vai desembolsar tudo isso pra morar com uma garota que não faz sexo contigo? [Marcus, só podia ser o Marcus]
– Nós já falamos sobre isso, Marcus. E ficou decidido os dias e horários em que faremos a coisa. [Joel]
– Sexo com hora marcada? [Marcus]
– Que legal. Como ir ao dentista. [Eu]
– Ei, caras, eu sei que vocês estão chocados, eu também achei que esse dia jamais chegaria... [Joel]
– Dia? Que dia? O dia que você cometeria o maior erro da sua vida? Eu pensei que você já tinha passado por ele, aquela vez que fomos pescar na lagoa gelada na nossa viagem de despedida do colégio. Você quase morreu de hipotermia aquele dia, Joe. Será que você não aprendeu nada com a experiência? [Marcus]
– Tipo o quê? [Joel]
– Tipo não se meter em frias! [Marcus]
– Que bosta, Marcus. Dá pra você me dar uma força? [Joel]
– Eu tirei você daquela porra de água quase congelando, caralho. O que mais você quer de mim? Não vem com essa de “me dá uma força”. [Marcus]

Sou o primeiro a sentar novamente. Fico assistindo a tudo quieto.

– O que aconteceu com os Três Mosqueteiros? Que bosta isso... [Marcus não deixa pra lá]
– Cara, o Joe parece saber o que tá fazendo... [Eu, dando de ombros]
– Fecha a boca, Santiago. Como você pode apoiar uma insanidade dessas? Vocês dois são o quê agora? A Força Romântica Nacional? Para o diabo vocês dois! [Marcus]

Marcus vai pisando duro até a sacada gritar. Joel luta contra suas glândulas lacrimais e recorre ao banheiro. Eu continuo com a bunda afundada no sofá, procurando algum canal que não traga nenhuma referência remota a matrimônios, relacionamentos, garotas, etc, mas acabo mesmo é tranquilizando meu polegar no seriado New Girl. O que eu vou dizer a eles? A não ser que: no bolso da minha jaqueta tiro um papelzinho ralo que um propagandista me fez pegar na passada até aqui, anunciando...
BAR DRINK ALABAMA
BELAS GAROTAS EM LOCAL DISCRETO
HORÁRIO: DAS 10H AS 24H
BALDE EM PROMOÇÃO: R$ 25,00
Desistimos todos de brigar.

*
De entrada já gosto do lugar: sai The Doors dos alto-falantes. Joel tem olhos marejados e seu coração dá voltas em torno de si mesmo (“Obrigado por me carregarem caras, é a despedida de solteiro perfeita! Você tem algum trocado aí, Santiago? Quero enriquecer aquela calcinha ali...”). Marcus ainda não desamarrou a cara e parece meio entediado, não sei se pelo comunicado oficial ou se porque já esteve no local muitas vezes na última semana.

Uma pobre-diabo resolve sentar no meu colo e lamber a minha orelha, o que parece provocante e sedutor, mas por alguma razão decepcionante, não é. Nunca dei as caras num covil desses antes, e minha empolgação vai até aspirar o cheiro nauseabundo de creolina pelos cantos. Homens solitários devem mijar (ou coisas piores que nem vou me dar o trabalho de imaginar) pelos corredores. E outra, baseando-me nos três de O Poderoso Chefão, sempre achei que nesses lugares as garotas seriam, você sabe, garotas; e não mulheres com feições preguiçosas e famintas que já tiveram uma silhueta campeã mundial em algum tempo de glória, talvez nos anos noventa. Eu esperei também por mais gordos carecas e misteriosos (talvez com ternos escuros e com maletas quadradas com uma dinheirama trancafiada), esperei por saltos mais altos, mais danças ao redor de um eixo maciço, por mais sofisticação alcoólica, por mais, sei lá, glitter. Mas a vida é isso, aparentemente, uma promessa descumprida atrás da outra. Mas Joe está feliz e é isso que importa (“Caramba, se gostar de mulher como eu gosto faz de mim um pecador, já podem ir construindo um pórtico me dando boas-vindas lá no inferno!”). Ah, droga, parou de tocar “The Crystal Ship”.

É um festival de peitos e traseiros e pernas e varizes. Nosso pequeno sarau erótico é pontuado por risadas e comentários à medida que vamos nos abismando com mãos frívolas e obscenas desafivelando, desabotoando, puxando zíperes e revirando braguilhas (“Puta merda, se Marta fica sabendo disso, com uma faca de cozinha e um golpe, faz de mim um eunuco. Isso, vai garota, pode ser a última vez ganho um boquete. Ei lourinha, você sabia que vou me casar?”).

Recuso o agradado e a moça se faz de ofendida, mas me oferta uma dança. Aceito, e a criatura começa a se chacoalhar na minha frente, decorada com uma infinidade colorida de luzes piscantes diante de mim. Eu tento me permitir uma sensação de normalidade, mesmo sabendo que nada à minha volta tenha qualquer ligação com o rotineiro. Fecho os olhos. Os abro novamente e não vejo nada, mesmo tentando pôr o rosto de Juliete na vaga dessa mulher horrorosa. Um tumulto de pensamentos e emoções me percorrem enquanto observo as sinuosidades da dançarina, me forçando a admirar toda aquela plasticidade. E, apesar do meu olhar avesso e oblíquo, e da má vontade dos meus beiços suspendendo um cigarro, a piranha segue exalando aquele cheiro triste das ruas, enquanto insiste em rodopiar no meu gelo.

– Qual o seu nome? – ela se intromete.
– Santiago. E o seu?
– Pode me chamar de “Danna”... – diz pausadamente, enquanto chaveia minha cintura com suas duas coxas polposas embrulhadas numa meia-calça que faz com que suas pernas pareçam um salame italiano, desses que a gente encontra pendurado em armazéns.
– Por que você está triste, Santiago?
– Quem disse que estou triste?
– Seu olhar – responde esfregando a mão carinhosamente no meu rosto, querendo extrair algum trocado de mim.
– É impressão sua – busco tortuosamente encerrar o assunto proposto pela puta, mas ela não deixa.
– No quê você está pensado, Santiago? – ela quase mia quando seu timbre roça no meu nome.
– Nada – digo o essencial.

Nada. Estou pensando em inúmeras coisas, mas minto que não estou pensando em nada específico, apesar da minha atenção estar de malas para Júpiter. Não posso dizer com o que estou ocupando minha cabeça porque as pessoas iriam apenas fingir um interesse cansado, rápido e bucólico. Soltar um confidencial “nada” é sempre melhor em casos obsessivos como o meu. Mas você quer a verdade? Óquei. Estou pensando que esse bailado pulguento em cima de mim não está com nada. Que ser tolhido de viver com a garota que você adora é uma bela merda. Que a vida na condição de solteiro já teve dias melhores. Que eu só estou aqui nessa boate pra enfiar umas tralhas na minha existência vã; porque sem esse divertimento lugar-comum, o próximo passo é parar de comer ou aparar os cabelos ou trocar de camiseta para sempre. Estou pensando que, de toda forma, o que estou fazendo aqui, senão me distraindo? Já ouvi dizerem que tudo isso, inclusive o que chamamos de amor, é só recreação e é verdade, amor é só entretenimento. O melhor entretenimento.

Ainda que com algum ceticismo – e endossado pela deprimente cena dessa moça esforçada por cima de mim – eu quase posso confessar a ela que Joel não está tão errado assim, aceitando a monogamia sem oferecer grandes resistências. Quem sou eu para classificar os outros, aliás, uma das principais pessoas a quem devo toda a minha fraternidade? Sou só um covarde que, ao longo de um dia absolutamente normal, sou capaz de alucinar impossibilidades a respeito de uma mesma garota durante boa parte dele. E isso enquanto estamos na metade do ano, quase na metade da década, e eu insisto em ficar na minha, sem peito de me entregar a alguém. Então finalmente decido minha vida pegando “Danna” pelo pulso até um quarto no andar superior. Eu sei, será só mais uma das minhas transas paliativas, mas... foda-se.