» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(029)

Bissexuais. Sempre fui a favor, mas agora não muito, motivos nos quais irei entrar após deixar claro:

1) Não tenho nada contra os gays, não sendo eles gays embaixo ou por cima de mim. No quarto ao lado pouco me importa, no entanto; nos dois anos que morei em Dublin dividi o apartamento com Daniel, um rapaz do qual sinto saudade pra burro e era homossexual de marca maior, e uma das pessoas mais dóceis e nobres e generosas que já conheci. Não falhava um café da manhã sem que tivéssemos suco de frutas frescas à mesa, espremidas na hora, do jeitinho que eu adoro. Sem contar que Daniel era mais macho que muito homem ao lidar com lagartixas de parede.

2) Lésbicas: quando não guiam caminhões, dou fé. No entanto, não quero entrar muito no assunto, porque fico emotivo nesses casos. Meu último choro em cinemas foi naquela cena de Cisne Negro em que a Natalie Portman e aquela outra bailarina morena rumam drogadas para o quarto fazer aqueles troços bacanas. E as garotas ainda ousam nos chamar de insensíveis, na primeira oportunidade.

3) Sexo a três, por exemplo. É para quem pode e tem habilidade. Eu, além de achar difícil reunir quórum, já perdi minhas esperanças de transar com duas garotas na mesma data, quando já está impossível realizar a coisa com uma só. E outra, não sei, isso parece demasiado fantasioso, lidar com quatro peitos, duas bundas, duas vulvas, quatro coxas (eu contei certo?). É muita coisa para quem mal consegue gerenciar uma cafeteria à bancarrota. Provavelmente eu me sentiria mais à vontade diante do painel de um Airbus A380 no meio do Atlântico, após o piloto e o ajudante sofrerem de paradas cardiorrespiratórias simultâneas. Sobre a versão com dois homens, não vou nem comentar.

4) Outras formas multidisciplinares de sexo, por mim tudo bem, embora eu não compreenda muito bem a moçada do sadomasoquismo, o pansexualismo, as relações afetivas com frutas e legumes, e também aonde os necrófilos precisam ir quando querem arrumar um encontro com um corpo legal e divertido. Eu acho que foram eles quem inventaram aquilo de se sentir só mesmo acompanhado.

Bem, sobre o que eu acho sobre as diferentes formas de amar, é isso. De volta aos bissexuais, eu estava dizendo que não domesticava nenhuma objeção a respeito deles, isso até querer namorar uma. Deixa eu atualizar você, que deve estar perdido nesse bacanal. Retornei ao Juno’s Pub e estou bebendo um chope no bar, batendo papo e me divertindo ao assistir Marcela fazer alguns coqueteis para os frequentadores que curtem coqueteis. Não sei em qual altura ela fez a revelação, mas o fez, e isso é o que importa.

Recordo ter tocado num assunto mais ou menos sobre meus conhecimentos sobre o quanto é irritante lidar com alguns clientes no balcão, e dela me perguntando se eu iria cantar alguma coisa no karaokê do lugar, algo do Nirvana talvez, e eu tentando explicar que essa noite não estava no clima. Nenhuma digressão remotamente afim de preferências sexuais. Mas ela disse que gosta de garotos e garotas, e que o nome dela é Marcela, e ela faz coisas esquisitas que me fazem rir com a coqueteleira de alumínio, e estamos nos entendendo bem, apesar do exagero com as gírias urbanas. Para ela tudo é “sinistro” ou “bizarro”, e eu me sinto bebendo um drinque numa tomada de Jogos Mortais 3.

Eu gostei dela. Marcela é engraçada e confiante, do signo escorpião, adora dançar, ir a estádios de futebol e jogar Guitar Hero, e tem sardas no rosto, criando uma toda uma atmosfera sapeca em torno dela, e eu estou precisando mesmo dar umas boas risadas na companhia de uma garota descolada e bacana, coisa que só acontece quando estou perto de... bem, você sabe quem, não vou dizer o nome, não quero detonar com meu humor e meu final de noite.

– Você tem compromisso para o sábado? – ela investiga.

Sim. Vou beber meia garrafa de vinho, fumar duzentos cigarros, pensar em Juliete, tocar alguma coisa do Daniel Johnston na minha gaita-de-boca, assistir episódios de House, sentir pena de mim mesmo e depois dormir. Por quê?

– Não. Por quê?
– Uns amigos vão dar uma festa privada num catamarã, sábado à noite. Cada um pode levar um amigo e eu acho que podemos nos considerar amigos, certo?

Perfeito. É tudo que eu preciso, de uma celebração inócua no meio do lago, regada à pílulas coloridas e música eletrônica de algum DJ que ficou famoso misturando as músicas dos outros. E se lá pelas tantas eu achar tudo um saco, sem problemas, posso me jogar na água gelada e voltar nadando trezentos quilômetros até em casa. Quem sabe eu ganhe uma medalha de ouro por topar uma presepada desse tamanho. Não tenho mais idade olímpica para esses programas.

– Parece legal – eu digo.
– Vai ser. Estamos trazendo um DJ dinamarquês super da hora.
– Eu posso imaginar.
– Você curte música eletrônica? Tipo Uplifting, Tech, Progressive?
– Não muito. Quero dizer, ando meio desatualizado, parei no Ace Of Base. Mas se eles tocarem algo do New Order, Moby, ou do Depeche Mode, ou dos... como é, do Sonic Youth, já terá valido a pena.
– Hum. Desses eu só conheço o Moby. É o careca, não é? Posso ver com o cara, se ele toca alguma coisa pra você.

Ai, meu Deus. E se for uma festa bissexual? O que eu vou fazer? Digo, nunca andei com bissexuais, não tenho nenhum amigo hermafrodito, até onde eu saiba. O que eu devo vestir? Como eu digo “não, obrigado, não curto muito alucinógenos” na língua deles? Como proceder no caso de um olhar furtivo por parte de alguma criatura? Eu devo deixar um bigode, arrumar um quepe, decorar as letras do Queen, tomar aulas para assimilar os passos de “YMCA”? Os organizadores prepararam fitinhas indicativas para distribuir na entrada? Que cor representa os heterossexuais ortodoxos absolutos? A única coisa que eu sei é que eu quero essa garota.

– Beleza – ela diz. – Nos encontramos todos às duas horas, lá no cais do porto.
– Ah. Nesse caso, eu passo. Estarei firme na labuta neste horário. Infelizmente.
– Você trabalha de madrugada? – Marcela pergunta, ingenuamente. – O que você faz? É vigia, atendente do McDonald's, cafetão ou troço assim?
– Você quis dizer duas horas da manhã?! – eu grito.
– Sim! – ela afirma, com a maior cara deslavada do mundo.
– Mas nem as corujas estão de pé às duas da madrugada!
– Bom, não fui eu quem marcou a festa.
– E vale o esforço ir até lá por uma festa de quatro horas?
– Como assim? – ela ri (de mim e não comigo). – Não, não, pretendemos almoçar por lá. Quer dizer, na verdade ninguém almoça numa rave. Você sabe como funciona uma, não sabe?

Não, não sei como é uma rave, nem sei como pronunciar isso, eu e meu pênis nunca fomos a uma. Ele quer muito ir, está animado. Já eu, nenhum pouco. Normalmente nossas discussões terminam em empate, mas o voto de Minerva nunca é meu, por motivos elementares e darwinianos. É, parece que vamos a uma festa maluca no meio do Guaíba, que inicia num horário que você deveria estar na cama, se você é uma pessoa séria e de caráter. Ah, como é gostoso estar vivo. Porcaria!

***
A questão do bissexualismo já nem me incomoda mais, é só uma coisinha boba na verdade. É só que, se eu fosse uma pessoa insegura e neurótica, eu me sentiria perturbado em me relacionar com uma garota com tantas possibilidades. Se você namora uma garota conservadora já vive ameaçado, imagina se a pessoa que você escolheu amar duplicar, triplicar quase, suas oportunidades de ser traído? Ah, eu tinha me esquecido: eu sou uma pessoa insegura e neurótica.

É cedo pra pensar nestas coisas ou eu estou sendo idiota? As duas coisas, mas é um dilema justo, não é? Eu me conheço, entraria em parafuso cada vez que Marcela me telefonasse pra avisar que chegaria mais tarde, pois se encontrará com uma amiga, ou um amigo, ou um androide, tanto faz, eu nunca me sentiria confortável em casa, sentado na minha poltrona assistindo os documentários sobre tubarões da National Geographic.

O problema dos bissexuais é que eles querem tudo ao mesmo tempo, e eu tenho quase nada a dar. Todas as garotas da cidade são mais gostosas do que eu, quase todas são mais endinheiradas do que eu, várias tem carro ou casa própria, muitas são mais másculas, outras são mais confiantes, e algumas são tudo isso ao mesmo tempo mais do que eu.

Com esse cardápio à solta na rua, nas festas, nos parques, no balcão do Juno’s Pub, não dou três meses e bangue! Marcela, minha primeira namorada em questão, me abandona e foge com alguém mais glamouroso e pirotécnico. Não há a menor chance. Não gostaria de andar inseguro por aí, seria como aquela sensação de que estou caminhando pela cidade sem as calças.