» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(004)

O que sabemos sobre Juliete até aqui? Ela quer ser psicóloga, não é muito de café e tinha um namorado idiota. Ah, e uns lábios carnudos e reluzentes. O que mais? É a fuça da Penélope Cruz, na visão de quem sofre de glaucoma ou coisa assim. Usa calças assinadas pelo Sr. Levi’s. Bem, são vinte e um dias que não recebo sequer um sinal de fumaça daquela metidinha, e nos últimos tempos tenho sentido saudade de alguém me desprezando.

Hoje eu também estou irritado, mas por uma outra razão que me escapa. Cheguei no café e fui direto para o quartinho dos fundos, que os funcionários apelidaram de “oásis”, um lugar onde viemos descansar o nariz do cheiro de café e dos pasteis fedorentos que ninguém consumiu no dia anterior. Rafaela, a funcionária mais antiga e queridinha da proprietária, entra logo atrás e pergunta se estou bem. Ela tem uma mania besta de se preocupar com os outros.

– Tenho certeza que é só uma dor de cabeça – ponho ela a par do meu padecimento.
– Você quer conversar?

Não sei que porra de conversa séria se tem sobre uma cefaleia, mas ela é assim, faz de qualquer bobagem um acontecimento.

– Não. É só uma dor de cabeça. Não há muito o que dizer sobre isso.
– Você quer um chá?
– Só se for de sofá – digo a ela, esfregando as têmporas.
– Bom, têm umas coisas que precisamos falar.
– Depois.

Ela meio que me obriga a ser rude, às vezes.

– Ah. Certo. Depois conto a você sobre a menina que esteve aqui te procurando logo de manhã.

Demoro um pouco a ligar os pontos, e quando me dou conta Rafaela já escapuliu para a copa. Saio logo atrás.

– Quem?
– Quem o quê? – Rafaela adora se fazer de sonsa.
– A menina, porra. Quem era?
– Ué, e eu vou saber? Sou paga pra limpar mesas e servir café, e não pra anotar o nome das suas sirigaitas – ela diz, com um leve traço de recalque cruzando sua feição. Não que ela sinta algo por mim, normalmente saco bem esses lances, só acho que Rafaela se sente assim diante de qualquer desenrolar romântico não relacionado a ela. Nunca a vi com ninguém, nem sequer falando sobre alguém. Ademais, não sei nada sobre ela, se tem vida própria, algum familiar respirando, se já dormiu com um cara, ou se frequentava as aulas de educação física quando era menina.

– Uma morena com a franja meio que escondendo os olhos? – sigo pesquisando.
– Pensei que você não queria falar sobre nada.

Quanto despeito.

– Na verdade essa é a única coisa sobre a qual quero falar.
– Não é assunto de trabalho. E não reparei na cor dos cabelos dela.
– Era uma parecida com a Penélope Cruz? – eu pergunto enquanto ela se concentra na gordura do balcão.
– Quem é Penélope Cruz?

Meu deus. Esqueci que Rafaela só assiste novelas do canal aberto.

– Como ela perguntou por mim?
– Como assim?
– Como assim “como assim”? O que ela disse, pediu pelo Santi, perguntou se o Santi estava, ou o quê?
– Não. Ela meio que quis saber sobre o rapaz que sempre fica ali na copa, atrás do balcão.
– Tá, e aí? Simplesmente foi embora?
– Não. Aí pediu um descafeinado e o deixou pela metade.
– Com conhaque?
– Uma hora dessas da manhã?
– Já são duas da tarde.
– Só que a tal garota misteriosa veio de manhã. Mesmo assim, por acaso ela é algum tipo de doida alcoólatra?
– Mais ou menos.

Rafaela faz uma careta do tipo com-que-tipo-de-garota-você-anda-se-metendo e segue desengordurando o mármore na bancada.

– Tá, e depois?
– E depois a gente se fala. Estou tentando trabalhar de verdade, e não querendo só impressionar você. Se eu quiser um aumento, você sabe, peço diretamente à Dona Agenara, pombas.
– Onde ela sentou? Digo, em qual mesa?
– Isso importa?
– Sim, preciso de pistas pra desvendar quem esteve aqui me procurando, cacete.
– Óquei, Sherlock. Ela sentou meio que por ali.
– Na do Oscar Wilde?
– Acho que foi – a garçonete parece confusa e meio abismada com meu frenesi.
– Eu sabia!

Eu sei, eu sei, isso não prova bosta nenhuma, pode ser coincidência, de modo que vou até Oscar Wilde tentando sentir o perfume próximo à janela. Só que essa droga de lugar inteiro fede a pastel de carne com ovo amanhecido. Droga.

Não quero mais que ela venha ao Sta. Gemma e muito menos que pergunte por mim. Há montes de outras coisas com as quais preciso me concentrar e não posso ficar amortecendo solavancos no meu peito cada vez que a porta de vidro tocar a sineta informando que algum freguês entrou. Não quero associá-la a canções ou a personagens de Fante. Não quero perder nenhum minuto formulando diálogos que não sairão conforme ensaiado quando a encontrar.

Tenho fortes motivos para frear esses pensamentos, e não é só porque sou um nada e ela parece ser tudo que um cara pode querer. Se ela seguir aparecendo aqui, continuarei esperando ela vir o tempo todo e, se isso acontecer, vou me comportar de modo atrapalhado e idiota, e sei que vou convidá-la para ir até minha espelunca outra vez, e ela vai negar outra vez, e eu vou me sentir um imbecil outra vez.

Além do mais, eu já li tudo quanto é tipo de romance e a esta altura das coisas já deu pra perceber que as coisas nunca saem tão maravilhosas como no papel. Não quero passar tudo aquilo que o jovem Werther passou. Juliete não é Charlotte. Juliete não é Penélope Cruz em Vanilla Sky porra nenhuma, é tudo fruto da minha idealização.

Repassando: eu nunca me apaixono, eu não boto fé em garotas, elas são umas dissimuladas e eu sou cínico a respeito do amor. Já testei essa coisa algumas vezes e concluí em todas elas que o processo envolve muito mais sofrimento, mentiras e desilusão do que a poetização inicial consegue supor.

Que porcaria de vida. Tudo começou como uma brincadeira juvenil idiota, e eu preferiria que continuasse assim. Quantos livros você precisa ler até aprender a escolher o que vai sentir quando encontrar alguém? Até a parte da atração física já estava legal. Eu disse que era encrenca, não disse? Acontece que eu nunca acredito em mim.