» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(041)

O tédio chega ao ápice quando você se pega concentrado na torneira gotejando contra o ralo na pia. Pinga. Dois segundos depois pinga outra vez, numa cadência irritante e perfeitamente harmônica.

Pinga.

Pinga.

Pinga.

Meus olhos estão injetados, como uma pistola se refreando para não disparar as pupilas por acidente. O teto é branco e não vai trocar a tonalidade, não importa o quanto você o encare, ou até onde ousa ir sua imaginação de sábado à noite. Aposto contigo que o tédio é incolor. E a solidão é negra como a medula de um furacão. O curioso é o efeito que dá ao confrontar os dois: meus olhos solitários e o teto pálido. Entre o preto e o branco, há matizes que às vezes são impossíveis até de imaginar. Gosto das cores que não existem. Aquelas que ninguém descobriu, com medo de misturar os pinceis e arruinar suas tintas que já possuía em princípio. Qual a cor oficial do tédio?

Preciso sair e ver uns olhos. Há duas semanas comprei um videogame de segunda mão, o trocando por um cheque bancário que o sr. Schmelzer me repassou assim que entreguei uns roteiros pra ele. Ah, não é nada de mais, só uns curta-metragens pornográficos para serem exibidos nos melhores cinemas obscuros do ramo. Eu não me orgulho disso, mas entre potencializar minhas finanças e gabar vantagens empregatícias aos outros, eu prefiro faturar mais. Preciso de uma nova jaqueta de brim, a minha está cheirando esquisito.

Eu até tentei desenvolver um enredo exultante por trás de toda a putaria, mas o editor foi enfático, “Não, não, Santiago, o pessoal quer ver só as penetrações mesmo, reescreva isso e mande novamente amanhã, ok?” Tudo bem. Com um copo de Domecq com coca ao meu alcance, eu retirava todas as partes geniais que havia pensado e deixava o troço como eles queriam. Ou seja, apagava os diálogos e deixava só o sexo. “Meu público não quer saber como eles chegaram lá, entende?”, me disse por telefone, insatisfeito com o trabalho. É, eu virei um daqueles escritores do submundo. Porcaria.

***
Aí aconteceu um negócio estranho pela noite. Era uma e pouco da madrugada, e a garota do apartamento em frente resolveu levar o cachorro para defecar e cheirar postes. Por volta de 1h37, lembro bem porque olhei assustado no relógio digital do meu telefone, ela bateu na minha porta. Os olhos apavorados, mantendo um cão distraído e amarelado agachado junto ao corpo, preso numa coleira.

— Oi. Foi mal incomodar, mas, por mais estúpido que isso possa parecer, fiquei presa do lado de fora do meu apê – ela diz antes de dizer quem é, como se eu tivesse a obrigação de saber. Quem, nos dias de hoje, é familiarizado com seus vizinhos de porta?

Acreditei nela de primeira. É modelo no nosso prédio essas drogas de maçanetas que não giram externamente, e também porque isso já aconteceu comigo uma ou duas vezes; porém, nunca assim num horário em que todos os mágicos das fechaduras estão plenamente roncando ao lado de suas esposas.

– Sou Tábata, aliás – diz sem estender a mão. – Você conhece algum serviço vinte e quatro horas?

Levei um tempo até responder, pois estava concentrado no nome dela – Tábata –, e me perguntando quem se chama Tábata nesse mundo. Mas é um nome bonito. Não me pergunte como é isso, mas ela tinha cara de Tábata. Com boa vontade, um rosto até jeitoso por trás das lentes enormes e das sardas saxônicas nas bochechas rubras de vergonha. Tábata e seu nariz infantil, seus olhos verdes não muito escandalosos e seu corpo nem tão rotundo e feminino quanto eu gostaria, e no entanto nada ruim, torneado por um vestido rosa-quase-choque. Uma forma de ser híbrida entre o caipirismo e os novos hipsters metropolitanos. Era difícil definir qualquer coisa. Liberei a entrada e ofereci minha poltrona, enquanto buscava opções na internet.

– Puxa, você tem uma porrada de livros por aqui, hein?
– Sirva-se à vontade – digo num tom envaidecido, o peito estufado. Mas logo começo a me sentir desconfortável ao pegá-la manuseando alguns. A garota então escolhe folhear O Estrangeiro, de Camus.

Em nenhum instante me passou pela cabeça abrigar ela e seu cão. Eu estava na décima fase de Medal Of Honour agora em modo espera, e a cama cheia de migalhas entregava meu estilo de vida. Eu apenas trabalhava em algum emprego desgraçado e passava noitadas descontando minha imobilidade jogando videogame, bebendo conhaque e comendo sacos de maçãs desidratadas. Tinha dúvidas se eu teria algo hospitaleiro a oferecer aos inusitados visitantes, como chá, uma conversa ensolarada ou mesmo uma toalha limpa.

Fiz uns telefonemas e nada. Olhei pra ela com ar derrotado. O cachorro esvaziou sua apreensão repousando o papo molenga no meu tapete. Parecia então que a garota estranha teria de dormir por aqui, no meu quarto, ou em algum lugar decente pelo qual seria necessário procurar muito. Até tentei sondar se ela não tinha um parente geograficamente próximo ou então uma cópia de emergência em algum lugar, embaixo do tapete de boas-vindas ou com o zelador, de repente. Ela balançou a cabeça negativamente, fazendo cara de burra.

Nesse contexto, Tábata até tentou se despedir, jurando dar um jeito nisso ela mesma, mas alguma parte misericordiosa de mim contrariou minha má vontade e não a deixou na mão. Inconvicto, martelei que ficasse, é para isso que servem os vizinhos, afinal; embora o cheiro rançoso daquele bicho enorme me perturbasse. “Lenny” (a dona do cão adora aquele cantor bonitão que canta “American Woman”) cheirou meus pés à mostra e deu duas voltas em torno de mim, decerto se certificando se seria ou não uma boa eles ficarem. Até onde o faro dele pôde compreender, eu não era nenhum tarado esquartejador, pois não conseguiu rastrear nenhum aroma de mulher morta entre meus dedos e o chinelo, ou em minhas canelas finas. E sossegou, portanto, com aqueles olhos remelentos de comiseração canina.

Alcancei uma cerveja para ela, e calibrei minha dose de Domecq. Nos restava esperar pelo branquejar de um novo dia, cheio de esperança e chaveiros acordados, de pé e atendendo seus aparelhos telefônicos. O acidente nos deixou perplexos demais para dormir de tão ridículo e absurdo que era. Uma simples fechadura do novo século já evitaria toda essa coação.

Ficamos momentaneamente silenciados por um filme metido a cult que passava no Cinemax – continha diálogos esquisitos e a Scarlett Johansson bem novinha procurando moradia – e não estava ajudando muito. O constrangimento tinha tudo para progredir, mas recuou a partir de um comentário encabulado que ela fez:

– Você está sem calças... – disse meio vacilante e embaraçada, agregando tons diversos à frase: era um alerta, uma análise ou apenas uma constatação? Declinei o pescoço e, puta merda, eu estava mesmo só de cuecas, e nem era uma das sociáveis, daquelas bonitonas que a gente acaba ganhando de uma namoradinha trivial que ficou pra trás. Cueca e camiseta, meu uniforme oficial das noitadas de entretenimento com a televisão. Mergulhamos num riso abobado e aí tudo foi ficando bem menos impessoal.

Tábata numa ponta da cama, eu apoiado no cotovelo próximo à cabeceira, agora de calças de sarja marrom, espiando a janela de vez em vez. Engatamos uns assuntos. Ela se mudou para o 204 não faz muito. Tábata também desabafa que está odiando seu curso de Mecânica Industrial, relata que ainda não conseguiu tirar sua habilitação para dirigir, diz que está perto de ser tia, que já comeu bolo com maconha uma vez e não ficou chapada. Enquanto ela fala, acompanho em seus lábios desprovidos de malícia um traço remoto de beleza, já que ela não é lá muito atraente – ela me parece meio desajeitada, sei lá, como uma personagem neurótica desses seriados americanos.

Engraçado eu não ter pensado em sacanagem na hora, embora tenha me dado algumas ideias depois, as quais anotei num caderninho torcendo para ela não perguntar do que se tratava. No duro, a realidade desse acontecimento dá um roteiro pornográfico de primeira linha. Você sabe, a vizinha que não sabe trocar a temperatura do chuveiro ou ficou sem açúcar. São clássicos. Mas, para o meu alívio, ela não pula em cima de mim, o que transforma todos aqueles milhares de filminhos que assisti na internet em verdadeiros enredos míticos. Mas a vida sabe como ser banal, não é?

Tábata pergunta se pode descalçar o tênis, e eu imploro para que fique relaxada, numa boa. Ela espreguiça os pés e afunda os ombros no meu travesseiro.