» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(017)

As segundas-feiras são tradicionalmente sacais. Deveria existir uma lei trabalhista que impedisse os cidadãos desgostosos de sair de casa nesse dia, com suas caras emburradas, o que seria o meu exemplo. Mas esta é, circunstância e particularmente, dolorosa para mim. Um início de semana do cão.

Em parte porque meu nariz está purpureado e rígido do murro que ganhei; em parte porque as garçonetes ensaiam uma espécie de motim (ouvi Rafaela da cozinha, por algum motivo, as acalmando “deixa ele, ele é assim mesmo”); em parte porque Juliete deixou todo tipo desesperado de pedido de desculpas na minha caixa postal e eu não sei bem o que fazer em relação a isso; em parte porque, por uma razão injustificável, os cheesecakes frescos estão atrasados; em parte porque preciso impulsionar meu plano de levar garotas para meu apartamento antes que o universo me presenteie com uma fimose.

Tudo isso, essa pressão comunitária para trepar, tem me deixado de saco cheio. Achei que seria mais simples, você perdia a virgindade na adolescência e pronto, seguia com sua vida. Mal sabia eu que a minha castidade se regeneraria toda semana, como a cauda de uma lagartixa. O caso é que esta experiência forçada e constrangedora com o encratismo precisa ter um fim. Se eu quiser suportar a agonia de respirar, preciso assumir o discurso do personagem Dean Moriarty em On The Road: “desde que eu descole uma gata mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas, garoto”. Busco nos bolsos da minha calça de brim, o meu aparelho de telefone. É hora de entrar em ação.

Por receio ou por pachorra, quero começar pelo mais fácil, ou seja, quero ligar para Nina. Depois me dou conta que não tenho o número dela, e minha mesa está um redemoinho, aí eu recorro à Rafaela – que por sua própria conta desconfia que desejo recontratá-la no lugar de alguma das garçonetes revolucionárias que temos disponíveis aqui, e não me fornece o telefone de jeito nenhum. Ó, céus. Digo que não é isso, e dou uma volta enorme, porque de nada adiantaria dizer que eu gostaria muito de levar nossa ex-funcionária para a cama. Rafaela, essa amável mula birrenta e empacada que trabalha comigo, me diz que só passará a sequência numérica por decreto do Papa. Pergunto a ela se tem o telefone do Vaticano. Ela me dá as costas.

Coisa que considero como a deixa para ir em frente. Ligo então para Francisca, e assim que a garota atende, percebo de saída uma falha estratégica: eu não ensaiei o falatório.

– Alô? – ela atende no terceiro bipe. Decerto estava dormindo, ou ensaiando, ou dando para outro cara que não eu (sei que são duas da tarde, mas as garotas dão quando a gente menos espera).
– É... – eu tropeço na minha língua.
– Alô? Quem fala?
– Ahhh... – este sou eu, telefonando para uma garota. Patético.
– Alô-ô...
– Oi! – eu digo. O porquê dessa voz de operador de telemarketing eu não sei.
– Oi, quem? – diz a garota, pacientemente.
– Sou eu. Quer dizer, é o Santi. O Santiago. Santiago Ventura. – Que Deus me ajude.

Por intermináveis dois segundos ela busca nos nevoeiros do tempo quem diabos é esse tal de Santiago, Santiago Ventura, e quando se lembra não mascara uma surpresa indecorosa, e pede desculpas um milhão de vezes pelo escorregão de memória. Justifica dizendo que estava vidrada em uns lances do grupo de teatro dela, talvez o roteiro de uma peça ou algo que o valha.

– E aí, como você está? O que tem feito? – ela pergunta.

Por um instante tenho uma vontade honesta de contá-la como estou e o que tenho feito. Direto ao ponto. Mas acho que mudei a direção do assunto para preservar meus objetivos e a minha autoestima. Suponho que seria inadequado demais, por mais que eu queira, usar a sinceridade num caso desses. (“Estou mais ou menos, tenho levado socos na cara por ser espionado com a mulher alheia e também não tenho transado muito, ultimamente, se é que você me compreende. A boa notícia é que estou ligando pra você e você é uma garota especial. Que tal um drinque?”) Não daria certo, não é? Então, contra as leis da minha natureza, eu consigo me controlar e deslizar são e salvo até o fim da ligação. Até me dou o luxo de transparecer que neste último mês tenho vivido como um ser humano que está indo além das suas funções vitais.

– Eu estou bem, obrigado. E você?
– Vou bem!

Ela foi demasiado enfática no bem; eufórica, até. Saco. É um mau sinal, não é? Talvez ela não precise de mim agora.

– Que bom. Que bom. Ótimo. Você é uma boa pessoa, fico aliviado por você estar bem – eu digo, sem saber de onde saiu essa (eu queria mesmo é ouvir um “estou péssima, de verdade, carente, confusa e desesperada, realmente precisando de uma companhia na cama hoje, hoje, HOJE!”, mas acabo de descobrir que o mundo não funciona do meu jeito).
– Sabe como é – ela continua. – Está tudo uma loucura. Faculdade, amigos, grupo teatral, acabei de me mudar, eu e minha nova colega de quarto estamos nos acertando ainda. O apê todo está uma bagunça infernal, ando sem tempo pra nada.

Nem para uma foda rápida? Droga. Uma das coisas que eu adorava nela, tirando sua excentricidade de menina de aura melancólica e seu bumbum campeão mundial, era que ela não vinha querendo parecer esperta com essa lenga-lenga de faculdade e blá-blá-blá. Só falta ela me dizer que abandonou a arte em nome da Psicologia ou do Direito ou da Administração de Empresas. Acho melhor desistir.

– Consegui entrar na federal verão passado, para Artes Cênicas – ela diz, e eu simulo um ligeiro interesse.
– Bacana.
– Escuta, estamos apresentando um espetáculo na cidade, você não gostaria de assistir?

Não, de jeito nenhum.

– Seria ótimo – eu digo.
– É uma encenação de Um Certo Capitão Rodrigo, do Érico Veríssimo. Posso conseguir uns ingressos pra você. Dois, na verdade. Pra você levar uma companhia, uma namorada, de repente. Sei lá, ou quem você quiser.

A menina está me pescando com esse troço de namorada ou... (Falando abertamente, eu gostaria de levar ela mesma, mas acho que seria meio estranho e descontínuo: Francisca precisaria alternar entre palco e plateia, e talvez seja trabalhoso para ela dar atenção a mim e atender as expectativas do resto do pessoal que pagou para assistir a peça, o texto, os diálogos, o diretor, a sonoplastia e tudo mais. Isso já deve ser complicado para artistas multidisciplinares e com estrada, imagine para quem está começando.)

– Estamos combinados, então. Vejo você na quinta-feira à noite – eu desligo, antes que a gente alargue os papos furados como queijo suíço.

Que maravilha. Agora tem uma peça de teatro de duas horas através da qual eu preciso sobreviver se quiser fazer sexo. Você não odeia quando isso acontece? Você deve estar pensando “seja prático, contrate uma prostituta e acabe logo com isso sendo feliz por uma hora cheia”, mas não é bem assim. Nunca fiz isso, por várias razões, todas financeiras. Não estou tão desesperado e, embora não pareça, sou um homem de princípios. Nunca deixo de segui-los, guardo um carinho imenso por eles, dou-lhes uns tapinhas nas costas, afinal, fui eu mesmo quem os inventei – são os meus princípios. E de mais ninguém, provavelmente.

E o que são 120 minutos vendo atores mirins riscando facas no chão em troca de um futuro, digamos, mais carnal e sexuado? Tem gente que vai muito mais fundo, em alguns casos mais críticos. Já vi homens financiando carros cheios de utilitários extras, fazendo cursos de culinária francesa, tatuando desenhos horrorosos no pescoço, estudando vinhos, plagiando a barbicha do Johnny Deep, escalando o monte Fuji, comprando helicópteros, já vi homens aprendendo a tocar Bryan Adams no violão, já vi homens invadindo a Polônia.

Enfim, já fiquei sabendo de homens que arranjaram todo tipo de sarna para se coçar. E todos eles queriam o quê com isso? Descartar alguma calcinha bloqueando sua passagem, sem dúvidas, e não me venham com conversa. Ok, posso admitir, talvez, que nós garotos não nos preocupamos com vulvas exatamente o dia todo, mas, automaticamente, estamos sempre pavimentando estradas que possam nos levar a elas em algum momento, em dias de folga ou quando acharmos justo. Com exceção, claro, daquele numeroso grupo de corajosos que, não satisfeitos, resolveram explorar outras superfícies.