» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(026)

Dafne até que é fácil de lidar, de modo que não precisei de um chicote e uma cadeira para interagir com a moça. Tête-à-tête ela me lembra muito a garota do supermercado, naquele tempo que ela chamava-se Danúbia ou Desirée e acabara me encantando, tanto a ponto de eu nunca ter vontade de mover os dedos para discar seus números.

Só que não foi apenas o humor dela que mudou desde a última vez. Quando a conheci, ela não usava toda essa maquiagem fraudulenta, que a deixa quase irreconhecível não fosse pelo seu “E aí, como está você?” quando entrei no bar e ela veio direto em mim. No ensejo, ela usava óculos de grau e não lentes de contato. Vestia calças de abrigo, tênis esporte e um moletom claro da turma do Pernalonga, e não minissaia, blusa tomara-que-caia e saltos mais altos que o monte Kilimanjaro (não sei como alguém pode usar essas coisas sem autorização da Infraero). Tinha os cabelos esvoaçantes e bagunçados, e não um penteado mulher-de-negócios.

Dá pra ver que ela mudou de fase, talvez tenha acontecido algo importante na cabeça dela, algo que tenha chegado junto com o início de primavera, e por isso ela agiu daquele modo no telefone, para deixar claro que eu fiquei pra trás. Embora não pareça.

O bar Santa Bárbara é legal, é estilo cabaré carioca e estamos numa mesa central do mezanino, onde no canto um senhorzinho negro de cartola branca dedilha versos do Noel Rosa e do Nelson Cavaquinho, e é como se estivéssemos no Rio de Janeiro dos anos 1930. Os bolinhos de bacalhau anunciados no quadro-negro com giz são gostosos e caros pra burro, e as cervejas do cardápio são importadas e amargas como quase todas as cervejas. Não está cheio, e eu posso ouvir tudo que Dafne tem a dizer sobre seu trabalho (ela é vendedora de carros de luxo, geralmente japoneses ou coreanos), e sobre a vida, e sobre sua última viagem para a Califórnia, e sobre sua incapacidade de encontrar alguém legal para bater um papo hoje em dia. Dafne é quase uma armadilha, na verdade: é boa-praça, é bonita, se leva a sério e tem cara de quem lê coisas idiotas como Por Que os Homens Amam as Mulheres Poderosas, aquele tipo de gente que diz adorar ouvir Beatles mas não sabe listar o nome dos quatro integrantes e só conhecem as clássicas como “Hey Jude” e “Come Together”, e assistem reality shows de todo tipo, sobretudo se houver gente rica envolvida.

– Que tal a gente terminar esse drinque em outro lugar? – ela sugere, na maior.
– Não sei. Pode ser.
– Onde você deixou seu carro?
– Eu não tenho carro – digo, meio que desafiando se ela vai querer continuar o drinque comigo mesmo assim. É aquela coisa, que espécie de homem não tem automóvel nos anos dois mil e dez?
– Sério? Que exótico – ela diz, meio bêbada, eu acho. – Não tem problema, pegamos um táxi.

Pegamos um táxi. Ela manda o motorista a um endereço que eu nunca estive antes, mas não presto muita atenção porque acabo de notar que a saia dela é mais curta no táxi do que dentro do bar, e ela deixa a coxa à mostra como melão em feira, de propósito ou não. Talvez ela queira uma opinião, enfim, saber o que eu acho da coxa dela. Aí Dafne enfia a língua na minha boca com o tesão de uma caranguejeira e dá a entender que poderíamos sentir o cheiro de estrogênio, se o taxista e eu fungássemos um pouco mais. Aí ela puxa meu braço e soca meus dedos num lugar morno e azeitado, localizado mais ou menos embaixo da saia dela, entre as pernas, e uma onda de pavor toma conta do meu corpo, iniciando pelo couro cabeludo.

– Tá sentindo como eu gostei de você? – ela diz, empapando minha orelha.
– Sócrates! – eu digo, com os dedos trêmulos.
– O quê? – ela diz. – Quando chegarmos lá em casa, você vai saber o que é uma mulher.
– Piano! – eu digo, de olhos arregalados, monitorando o taxista.
– Sócrates? Piano? O que você tá dizendo? Aposto que você nunca viu uma mulher tão fogosa...
– Pelotas!
– Hein? – ela parece confusa.
– Sócrates. Piano. Pelotas.
– Vou te deixar louquinho na minha cama, você vai ver – ela diz, toda melosa.
– Táxi!
– O que tá se passando contigo? Mexe os dedos, vai... – ela sussurra.
– Sócrates. Piano. Pelotas. Táxi. Mãe.

E por aí foi, o resto do caminho todo. Não sei o que me deu, já vi isso acometendo o George Costanza naquele episódio em que ele é massageado por um homem alto e louro, e o pênis dele involuntariamente se move contra a maca. Comigo foi uma espécie de bloqueio sexual ou reação alérgica a lubrificantes naturais, encontrados somente em canais vaginais. Sei que eu pude sentir meu córtex-frontal traumatizando para o resto de toda a minha vida.

Nunca gostei de fêmeas ardentes demais, pró-ativas demais, ousadas demais, principalmente em bancos traseiros do transporte público. Sei lá, preciso sentir que meu próprio mérito não é apenas estar na hora certa, no lugar certo, embora aquilo não fosse hora nem lugar para fornicações inconsequentes. Pelo andar da noite, qualquer um com certidão de nascimento, ou talvez um invertebrado, a deixaria naquele estado. Eu nunca tinha me sentido usado antes, e não foi legal.

***
“E o que aconteceu depois?!” querem saber Marcus e Joel, empolgados, saltando de um lado ao outro, igual dois chimpanzés presos numa jaula, e como se eu tivesse munido com caixas e caixas de banana do lado de fora.

– Bom, e aí eu broxei. Obviamente. Nada é mais broxante que uma garota visivelmente excitada.
– Como assim? – os dois perguntam em uníssono e estupefatos.
– Broxando, ué! Aposto que vocês dois sabem como é, não sabem?
– Já me aconteceu um punhado de vezes – Marcus confessa.
– É. Acontece com os melhores homens – diz Joel, num tom meio propaganda-de-uísque.
– E por que não aconteceria com os piores? – treplica Marcus.

E então ambos dão uma gargalhada feroz e caricata, e aí terminam fazendo um “high-five” estalado e idiota com as mãos suspensas no ar.

Eu explico a coisa toda a eles, por passos. Eu quero uma namorada. Gastei duas horas revirando poemas do Neruda para recitar acidentalmente para a garota, na hipótese de passearmos pelas calçadas no ressoar cálido da alvorada, e ela me vem ao encontro romântico já sem as calcinhas. Parece excitante, soa excitante, mas isso é triste. É primavera, poxa, e as pessoas deveriam esperar ramalhetes de flores e ir a encontros integralmente vestidos. Estou procurando alguém para admirar a beleza da barriga quando estiver grávida de um filho meu, e não uma transa ralé e infame dentro de um táxi dirigido por um motorista chamado Terêncio. Porcaria!

– Aí você se explicou e deu o fora? – pergunta Marcus.
– Não, eu transei com ela mesmo assim. Depois. Já no apartamento dela.
– Então eu não entendi nada – Joel fala.
– Ah. Sei lá. Quando ela parou de agir feito uma zebra ovulando, as coisas deram certo e aí rolou.
– E você vai vê-la outra vez?
– Não sei.

Eu menti, na caradura. Não fomos pra cama, eu sequer me segurei até chegar lá, não faço ideia da alcova onde aquela insensata vive. O taxista decretou que descêssemos antes e procurássemos o caminho do Senhor, e eu concordei, embora ainda esteja meio confuso sobre que tal senhor seria esse que eu devo seguir, se ele também mora na Cidade Baixa, se trabalha como taxista, tanto melhor. Aos caras, disse que transamos porque é mais fácil de lidar com Marcus e Joel desse jeito, na base de grandes feitos fictícios.

Dafne até quis prolongar a saga e atracou outro táxi, mas eu achei melhor não. Aí ela ficou raivosa e me ofendeu fazendo referência a um tipo de mamífero ruminante da família artiodátilos, muito encontrado nas savanas africanas, presa fácil dos leopardos. Nem me importei. Eu estava longe de casa, assustado, molhado, sozinho e ainda aterrorizado com os gemidos que ouvi naquele banco traseiro. Voltei pra casa andando, no meio da noite. O vento foi espalhando pra longe as palavras que eu esbravejava sozinho.

***
Você deve estar rindo da minha cara, com esse meu papo grudento e piegas sobre afetivismos e namoradas e coisa e tal, logo eu, que sempre fui um ser vil, um mulherengo avesso, um romântico torto, um canastrão pelintra, ou qualquer outra denominação justa que você tenha ouvido por aí, provavelmente de alguma pequena revoltada.

Mas eu mudei. Me sinto como aqueles caras que passaram vinte anos na cadeia por ter esquartejado e ocultado o corpo da própria mãe e, depois de quitar suas contas com a sociedade, andam pelas ruas atrás de emprego digno, suplicando por uma chance de mostrar sua reabilitação.

Mas só eu acredito em mim. Porque só eu posso sentir a nobre pureza da minha nova essência. Ou talvez seja só uma sensação passageira, uma crise de identidade, uma reação tardia ao abandono do meu pai. Cansei desse troço, no duro. Com quantas mil pessoas você precisa dormir até esquecer uma só?