» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(056)

Ela agacha e põe a sacola do mercado no chão para travar a porta. E eu não via a hora de retornar para o consolação da minha cama após meia tarde perdida num ambulatório precário. “Acabei nem falando o que vim te dizer” diz, e eu não quero saber o que é, então desconverso. Acho que não quero saber. Ou tenho medo. Ou estou indisposto para proclamações, com a nádega esquerda latejando do benzetacil que aquele homem fornido todo de branco me aplicou. Eu apostaria na casa dois, se minha morte estivesse em jogo. Me sinto muito mal. Me sinto quente, com fome, grudento e com bafo.

Não consigo enxergar porra nenhuma quando ela se ajoelha no colchão e alarga a boca feito uma criança à procura de atenção adulta. “Viu só, tirei minhas amígdalas, não tenho esse problema”, se vangloria com hábito de Tic-Tac sabor canela. E eu grunho um jocoso “e eu com isso” me cobrindo com o edredom cheirando a minha doença.

– Toma. – Juliete me dá na boca a primeira boleta do antibiótico receitado, espichando um copo de suco de laranja recém comprado. – Vou descongelar aquela sopa, está com fome? – pergunta com a mão suavemente bajulando caracois molhados na minha testa.
– Sim, estou morrendo de fome. Quer dizer, estou morrendo de febre, mas ficar sem comer tá acelerando o processo.
– Para com isso, você não tá morrendo. É só uma amigdalite, deixa de ser fresco. Nossa, o que seria de você sem os cudados de uma mulher? E se eu não tivesse dado a louca de aparecer?
– Eu deixaria uma nota póstuma, narrando tudo. E semana que vem o mundo já teria esquecido quem fui.
– Abobado.

Ela abre a embalagem e enfia o tijolo de galinha desfiada, arroz, temperos industrializados numa panela que já viu dias melhores e chegou a ser considerada de teflon. O fogão demora a ligar a chama, e aí ela lembra do jeitinho. Diz que não sabe fazer sopa, por isso pegou essa canja pronta no freezer do Zaffari, mas pode preparar um creme de chocolate que aprendeu na adolescência, com a querida senhora que terminou de criá-la. Talvez me faça sentir melhor. Aceito, com olhar desafiador. Ela não tem cara de quem aprendeu a fazer cremes.

Ainda estou num banho escaldante enquanto Juliete troca a fronha e os lençois. Flagro ela com o nariz na minha camiseta. Eu finjo que nem notei, ela tenta disfarçar a jogando num aglomerado de panos que vão acabar rodando naquela máquina de lavar barulhenta que divide o cômodo com o vaso sanitário. Me deito nu embaixo de um edredom novinho saído do armário, fedendo à madeira úmida e poeira e cocô de traças. É bom vê-la, isso me alegra e acalma, mas não a ponto da minha garganta descaroçar. Ela não é tão boa assim.

Quero ela perto de mim, não me manifesto, mas Baby Julie vem mesmo assim, parece atraída pelo perfume do meu afeto. Mede minha temperatura, sem muita habilidade ou certeza do que está fazendo. Anda levemente com a mão por sobre meu peito, que ofega. Tem a audácia vacilante de me beijar os lábios, toda insegura, respirando aliviada ao recuar sem ter levado um coice. Estou fraco demais para reagir ou protestar, então, como uma pantera faminta, a tinhosa toma vantagem da minha situação enferma. Ela monta em mim, as coxas de cada lado se destapando da saia e algemando meu tronco, e agora dispara umas linguaradas mais agressivas e profundas. Enquanto lambe meu rosto sem muito critério, a cintura baila inquieta atrás de um sinal positivo. Ela para, me olha, ela fecha os olhos, segue, mete a língua. É incrível como sou capaz de ostentar uma ereção no meu atual quadro clínico. Minha febre já não é mais só minha. Como por biosmose, estou congelado e Juliete está fervendo ensopada, só que não dá pra saber de quem é cada estado, o clima é um só, juntos somos sólidos, líquidos e gasosos ao mesmo tempo. Fazemos tanto silêncio que chega a dar pra ouvir o som culposo da nossa verve. Assim que minha empolgação ganha consistência e se firma, não há mais volta. Ela livra a calcinha do caminho, com o vagar engenhoso que só uma garota muito decidida e com vontade saberia como fazer. Fico impressionado, e quando percebo pulamos o cerimonial e já estou lá, com a contribuição ativa e manual dela. Tenho dificuldade para respirar, mas me viro bem quando ela pensa alto “nossa, você não sabe a saudade que senti do seu pau...” É uma penetração lenta e um pouco incômoda, porém prática, mas também silenciosa e constrangedora, uma cena de filme nacional apressada e deprimente de tão convencional, com aquele quê de “Não, isso não está acontecendo”. Mas é absurdamente real.

Ouço um grito abafado perto da minha orelha. Eu gozo dentro, do jeito que eu sempre gosto. Me dá uma tremedeira. Foi tão urgente e rápido que não pareceu se tratar só de curtição. Não foi uma relação sexual, foi um acerto de contas. Mesmo de olhos fechados, consigo vê-la saindo de cima como se nunca tivesse subido. Ela acaba não dizendo o que veio falar quando me encontrou assim, debilitado pela dor de garganta, a febre e o quarto sombrio e caótico. Sinto cheiro de sopa de galinha queimando.