» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(019)

Acho que vocês têm o direito de ficar por dentro de uns troços. É o seguinte. É uma ideia bastante idiota, na verdade, de modo que é prudente não esperar muita coisa, já vou logo avisando. Talvez você não goste e também nenhum outro hipotético leitor, e provavelmente nenhum editor enforcaria sua reputação parindo ao mundo uma besteira dessas. É sobre um cara, bem, um escritor (e eu falo isso como se o mundo já não tivesse romances sobre escritores que chega), e a história gira em torno do primeiro romance que ele está tentando escrever.

Ele, meu personagem, depois de um acúmulo de infinitas anotações, sofre um sério bloqueio na metade do caminho. Para piorar, concomitantemente, sua mulher desemboca numa importante crise originária das profundezas da mente feminina. Então ela descola um amante na academia de ginástica, o cara descobre, e o adultério salva as duas coisas, aparentemente: a esposa fica feliz e suspende as queixas, e ele, o escritor-personagem inspira-se na própria dor de ser corno para escrever. Só que aí o amante não aguenta a barra de ser o outro e rompe com tudo. Com a esposa e com o livro do corno, que fica sem final. Então é isso. Não é muito fácil de explicar. Fala um pouco sobre essa correlação do sofrimento como insumo para a arte. Eu disse que não valia a pena, não disse?

Na página 77, Juliete entrou. Não no meu romance de ficção, mas na minha vida. E a parti daí, eu perdi o enredo, a linha, o fio condutor da meada. Na ficção e na realidade. Eu quis enfiá-la no meio – literária e literalmente (ha-ha ho-ho, muito engraçado) – e a coisa foi para o diabo. Eu me acho um escritor, mas de fato sou mesmo é um barista de café e um péssimo autobiógrafo. Não tem espaço para Juliete no meu romance, no entanto, como sou um incompetente na tarefa de esquecê-la, resolvi coligar o realizado às páginas. E tudo deu em merda.

Talvez fosse mais fácil se eu fosse o corno da vez, o tal do Maurício (a redundância irônica desse nome me aborrece – “Maurício-Mauricinho” –, é mais ou menos quando leio “Ganhe Grátis” em algum anúncio que um publicitário criativo e genial compôs assim que terminou seus Quatro Anos de Estudos Importantes). O que diria nosso amigo cretino de tudo isso?

Por um momento me sinto tentado a procurá-lo, quem sabe assim ele possa me relatar seu drama pessoal de ser traído na maior e sem cerimônia, e com isso eu volte a escrever pelo menos um parágrafo com o pé nas costas, negócio que não acontece há um mês e meio. Eu me daria o trabalho de tomar outro soco, se isso me ajudasse a finalizar meu grande romance. Valeria o esforço? Eu acho que sim, ué, cada escritor com seus métodos, suas receitas para puxar a inspiração. Dizem que Goethe só produzia de pé, numa escrivaninha alta feita sob medida; por que eu não posso datilografar alguma coisa com a cabeça erguida a fim de estancar uma hemorragia boba no nariz?

***
Pronto, o sonho acabou, voltamos à existência baseada em fatos reais. É sério, o sonho acabou aqui no Sta. Gemma Café e a proprietária está bufando de um extremo ao outro. Quem estou tentando enganar? Não sou escritor porra nenhuma, sou apenas um gerente bosta com capacitação para negligenciar cinco sabores de sonho, que deviam estar agora em exposição neste balcão de merda da porcaria dessa cafeteria.

A vida não é bolinho. Dona Agenara quer expandir mais os negócios e – sempre berrando como uma italiana de estirpe – sugere que eu faça uns cursos matinais sobre rotinas administrativas e esses lances chatos. Não vou, mas fico de pensar no assunto para não incrementar seu aborrecimento agudo e retumbante.

Você não precisa aplicar nenhuma pesquisa de clima pra sacar que as coisas por aqui não estão nada legais. E olha que dessa vez eu nem dormi com nenhuma das funcionárias. O caso é que se eu mergulhar nessa área, estarei assinando embaixo que é isso mesmo que eu quero fazer da porra da minha vida profissional.

Bom, voltando ao meu romance. Talvez eu talhe todo meu emaranhado já digitado e passe a contar uma outra situação, algo que comente a existência de Juliete, já que é mais fácil escrever sobre o que você não tira da cabeça. A minha sorte, eu acho, é que não ser verdadeiramente um escritor – desses com títulos assinados em livrarias e noites de autógrafos e convites para feiras da área e um punhado de leitores –, mantém meu gosto pela escrita.

Sei que estou me lamentando, mas pode ser que não seja uma coisa tão ruim eu não ter o esteio de um agente, ou qualquer outro plano, mapa, recurso ou disposição para publicar minha obra. Eu me conheço, tenho essa mania de cansar fácil das coisas; eu costumava adorar café e agora estou enojado dele e de todas as suas versões, levando ou não chantilly na receita. Se um dia eu realizar a ilusão de minha mãe e cursar os seis anos de Medicina, por favor, me lembrem de não direcionar minha especialização para a ginecologia. Seria uma tragédia anunciada.