» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(031 e 2/3)

Se você é daqueles que não curtem muito ser assaltado na rua, a maneira mais segura de chegar onde moro tarde da noite é subindo a José do Patrocínio, contra o imenso fluxo de veículos a qualquer hora, o que não é problema para mim, que nem sei dirigir direito e nem estou com pressa de chegar em casa. É o trajeto mais extenso e mais iluminado. Pela calçada, ainda apinhada de andantes e seus rebuliços, sigo em marcha contra o vento sul me cortando as maçãs do rosto e vascolejando meus caracois sempre precisando de reparos, na direção do Guaíba, com perspectiva de dobrar à direita.

Certa altura, carro-vem-carro-vai, motoristas começam e buzinar, apontar xingamentos praguentos com as cabeças pra fora da janela e enfiar suas luzes altas na minha cara, tudo de forma intrigante. Possivelmente tenha algo errado comigo, – digo, algo explícito –, só que não consigo imaginar o que é, após certificar que saí por aí vestindo as calças. Se a birra foi desencadeada pela desordem do meu cabelo, bem, não há muito que eu possa fazer. Porcaria, o que há?

O que está errado comigo é Juliete, que tem o mesmo conceito de orientação daquele russo que foi se meter com Mike Tyson por oito segundos. A doida da garota está me escoltando na contramão, a 10 km/h, e irritando os condutores de ônibus que já estavam irritados por trabalhar nesse horário. Juliete quer porque quer me dar uma carona.

Para o bem do trânsito de Porto Alegre, eu entro na porra do Renault e ela consegue o que quer, e também o que não sabe muito bem se quer. Mas consegue. A chuva volta com tudo, a novidades são alguns granizos. Agora no sentido correto, Juliete faz uns maneirismos com o volante, desemboca numa alameda soturna que em nada me parece domiciliar, e eu fico ali, como um pastel, sem compreender merda nenhuma.

– Por que você parou?
– Não sei – ela diz. – Eu não estou a fim de te levar pra casa.
– Bom. Tudo bem. Nesse caso, eu...
– Agora! – ela berra. – Não quero te levar agora. Espera um pouco. Deixa eu pensar.
– Pensar? Você esqueceu onde fica minha casa, é isso?
– Claro que não, seu burro.
– Ok. Acho que por hoje já estou bem de insultos. Pode ir parando com isso. Saco!

Tento saltar, mas não entendo muito bem essas alavancas dessas porcarias de automóveis tchan e modernos. Que droga. Ela segura meu braço e eu paro de tatear a porta. (Só depois me dou conta que o tranque fica centralizado no painel, e não há um puxador ou uma manivela ou algo que eu possa discernir como tal, mas um botão digital e idiota, avisando “abrir-porta-direita” aos eventuais passageiros Amish.)

– Foi mal. Só estou pensando no que vou fazer contigo – ela diz, séria e alheia.
– Sabe, falar como um integrante da Família Soprano não vai me deixar mais calmo – digo a ela, tentando parecer cômico, mas estou meio nervoso, pra falar a verdade. – Você vai mandar alguém me matar ou coisa assim?
– Não seja ridículo!
– Não sei se consigo. Eu já nasci assim. É a mesma coisa que pedir ao Woody Allen que não seja baixinho e feio.
– Com nós! Com isso! Estou pensando numa saída para essa confusão em que a gente se meteu – diz ela, e depois enfia a mão na cara e apoia os cotovelos no volante.
– A única saída que eu vejo é abrir a porta e descer da sua carruagem. Mas está chovendo, e você me deixou mais longe de casa do que eu já estava a pé, e não estou muito disposto a me resfriar.

Ficamos então uns dois minutos calados, separados pelo rumo que nossas vidas estão tomando e pelo freio de mão puxado. Os dois, cada um desconcertado para a sua janela, quietos e cheios de perguntas retóricas do tipo o-que-a-gente-vai-fazer, todas sem respostas e conclusões e apontamentos.

Enquanto assistimos lágrimas de chuva escorrendo até o limite do vidro com a borracha que indica onde inicia a porta, um trovejo rude e estrepitoso nos lembra que estamos no meio de uma tempestade e sem um barômetro funcionando nos nossos paineis. Há uma espécie de desconforto tenso, sedante e estimulante ao mesmo tempo, se é que vocês podem imaginar como se sentiriam se passassem por uma situação dessas. Com uma olhadela de rabo de olho, posso sentir que Juliete agora virou o olhar para mim.

Está escuro e chovendo, de modo que só conseguimos enxergar o rosto um do outro quando o poste a uns três metros lampeja em mal funcionamento (é para isso, aparentemente, que pagamos nossos impostos: ficar sem iluminação pública quando se está dentro de um carro com uma gatinha, parado num beco). Como ímã e aço, nossas bocas se procuram e a gente acaba não se segurando. Dá pra ver que não estamos muito dispostos em aprender a frear o troço. (Amanhã dou uma olhada num livro de autoajuda sobre o assunto na livraria da esquina, e se eu não encontrar, pode ser que eu escreva um. Talvez exista uma brecha nesse mercado, já que existem pessoas se beijando o tempo todo, justamente quando não deveriam fazê-lo; quando deveriam, sei lá, estar no sofá de seus lares com seus respectivos pares oficiais, beijando eles, se ainda forem capazes disso.)

Ela se afasta, capenga e devagar, e o retraimento milimétrico produz uma espécie de fio condutor feito de baba doce e viscosa, unindo ainda nossos lábios. É o ato nojento mais romântico do qual já participei, eu acho. Aí minha Baby Julie diz, em tom meigo e apreensivo, sem defrontar minha reação, escorando a testa no meu queixo:

– Eu posso ser sua essa noite?
– Outra vez?
– É.
– A última?
– Eu não gostaria que fosse, mas eu não enxergo múltiplas escolhas nesse caso.
– Saquei – digo. – Eu aprendi a não esperar muito, de qualquer maneira.
– Me leva pra tua casa, então.
– Como assim? Você quer que eu dirija? – pergunto, todo assustado.

Ela gargalha.

– Não, seu tonto. Quero que você me deixe subir quando chegarmos lá.
– Ah bom. Ufa. Guiar um carro e fazer amor contigo no mesmo dia seria emoção para meses, eu não possuo coordenação motora para as duas coisas, mesmo com um intervalo de tempo entre elas.
– Bobo – ela diz.

Juliete torce a ignição e conduz seu Renault com cheiro de novo deslizando as rodas suavemente pelo asfalto molhado e resvaladiço, desviando das crateras abertas pelo departamento de saneamento básico, pisando fundo em aclives, aguardando semáforos, dobrando esquinas, alcançando pontos luminosos da Cidade Baixa, onde podemos ver com clareza no rosto um do outro a emoção culposa e paranoica e alucinante a respeito do que vamos fazer, daqui a um quilômetro e meio, mais ou menos. Lá vamos nós para este inferno de novo. É engraçado – e talvez eu esteja desrespeitando alguma lei de Platão –, mas estar irremediavelmente apaixonado é a melhor e a pior coisa que pode acontecer a alguém.

***
Você já se deu conta do quanto somos escravos dos nossos orifícios? Pense bem, todos os problemas que você tem, ou imagina ter, são relacionados a todo tipo de buraco do seu corpo. A desnutrição, o enfisema pulmonar ou o peso excessivo (boca), sua baixa autoestima (você tem ouvido elogios de menos ou verdades demais), suas hemorroidas, você sua demais quando nervoso (poros e outras endocrinologias), a televisão que você assistiu demais e o deixou burro, o cheiro da amônia e, não menos importante, as secreções de prazer que você move moinhos para liberar, e isso inclui as suas (e as minhas) confusões com garotas.

Acho que por esta razão o corpo humano sangra quando aberto um novo duto – é para nos alertar que podemos ter problemas com isso. Sério mesmo, eu não acharia ruim cimentar todas essas brechas que meu corpo dá para que eu me sinta culpado e aturdido e necessitado, e assim viver desprovido de qualquer noção sensorial, como uma imensa e humana pedra rolante, como diz aquela clássica do Bob Dylan com um belíssimo solo de gaita-de-boca, isso para quem também é fã de solos com gaita-de-boca e de Bob Dylan.

continua...