» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(014)

Hoje é sexta-feira e eu estava meio preocupado com meu retorno solitário para meu quitinete nesta noite. Só que está tudo bem, é o que parece. Aqueles dois integrantes do Casalzinho Mais Irritado Do Mundo, no café pouco antes, meio que me aliviaram. Me propiciaram um pouco mais de espaço na cidade para eu relaxar e esticar minhas pernas exaustas do trabalho, naquele bistrô imundo. Aquela sensação pouco confiável de vazio se dissipou ao passo que meus tênis sujos iam vencendo a calçada, quadra a quadra, até em casa.

Depois de uma ducha, sou tomado por uma pequena sensação de bem-estar que talvez não dure muito. Dito e feito. Olho em volta, vejo meu computador no modo de espera e não sinto vontade de escrever hoje. Há um livro de capa mole lido até a metade ao lado do travesseiro e não estou muito a fim de retomá-lo. O edredom amarrotado sobre a cama não me convida para deitar e assistir alguma coisa, sei lá Frasier ou Mad About You (sim, são alguns dos meus sitcoms favoritos e eu também desconfio da minha virilidade, uma vez por ano). No mais, há uma caixa oca de néctar de manga sobre a pia, no chão um tapete revirado, e uma cesta atolada de roupas sujas no canto. No bidê, posso encontrar sobras de biscoito amanteigado, alguns trocados para o cigarro e a loteria, a gaita-de-boca, meus óculos para descanso e uma lata de tônica improvisada como cinzeiro. É o cenário da minha vida de altos e baixos, e quando sinto que preciso largar aleatoriamente umas calcinhas pelo assoalho para me sentir melhor, lá vai o Sr. Telefone:

– E aí, cara? É o Marcus.
– Ah. Oi. Como vai?
– Vou bem. Pela sua recepção entusiástica, devia estar esperando uma ligação da patricinha. Diga que não é verdade.
– Não é verdade. – É verdade, estava. Estou. Quero ver Juliete. E daí?
– Que bom. Como passou a semana?
– Nada mal. E você?
– Tudo nos trinques.

Ele fala assim, o Marcus. “Tudo nos trinques”, “Lá têm chicas de montão”, “Estourar a boca do balão”. Etc. Ele continua:

– Ótimo. Escuta, vamos a um pub hoje à noite, talvez no Juno's ou no Stonehenge, enfim, vamos olhar umas chicas. Eu, você e o Joel, como nos velhos tempos. O Joe me ligou agora, parece que, sei lá, meio que deu um tempo naquele namoro inoperante dele. Quer saber como andam as coisas na rua, o cara está meio desatualizado e precisa de nós. Vamos estourar a boca do balão.
– Hum. Certo – eu gaguejo.

Não quero estourar nenhuma boca de balão. Nem sei como é isso. Marcus continua me vendendo a noite, tão sedutora quanto as enciclopédias Barsa na era da internet.

– Santi, cara, só pra você ver como ele está por fora, usou as palavras “flerte” e “paquera” no telefone mais cedo.
– É grave mesmo a coisa – eu digo.
– Não é? O cara é uma calamidade. Posso contar contigo?

Não quero sair com os caras para um pub. Não consigo arregimentar nenhum tipo animosidade para um programa infantil desses. Não estou pronto para lidar com amigos carentes agora. Mas, sabe, a coisa parece que funciona assim. É como se eu fosse Robinson Crusoé, precisando pescar alguma coisa para não naufragar na minha oceânica solidão.

– Claro. Eu vou. Contem comigo – confirmo, artificializando um tom mais vibrante.

Quando desligo, despacho o aparelho na cama e assisto uma discussão dublada entre Richard Gere e Julia Roberts por alguns segundos, antes de cavocar uma camisa limpa para sair. E lá vai o telefone de novo.

– Alô. Oi, sou eu. Juliete.

Há um longo silêncio em ambos os lados da linha. Na ala de cá eu saio no soco com meus instintos ao mesmo tempo que enfrento uma espécie rara de aneurisma; enquanto no viés de lá, Juliete escolhe o que vai dizer. Richard Gere e Julia Roberts começam a se beijar na tela.

– Alô. Quer dizer, olá. Oi – eu balbucio, debilmente. Patético.
– Oi. Seria muito esquisito ou impróprio se eu dissesse que quero te ver?

Sim. Óbvio.

– Não. Claro que não. Seria bom, até.
– Maravilha. Então tá, é isso. Oficialmente: quero te ver.

É sexta-feira. É noite. Como assim me ver, mulher? Normalmente é dia e horário das garotas sérias estarem com seus namorados, jogando boliche ou assistindo os noticiários ou porra assim. E não na rua, enfrentando o perigo. Ou, talvez em casa ela esteja em perigo, com o idiota-figurão. Sei lá. Não sei o que pensar. Não, não. Não vamos nos ver. Acabou a palhaçada. Volte para seu namorado ou procure outra distração. Sei lá, vá a Nápoles comer uma pizza e volte no próximo voo, ou contrate um mágico de festa. Qualquer coisa que não eu, poxa vida. Você não entende, criatura?

– Onde você quer me ver? – eu pergunto.
– Você tem macarrão em casa?
– Sim – eu respondo, perplexo e desordenado.
– E salsichas?
– Hum. Isso não. – Macarrão? Salsichas? O que diabos está acontecendo aqui?
– Tudo bem, eu levo – diz Juliete. – Me deu uma vontade de comer macarrão com salsichas. Você faz pra mim?

Ela acha que eu sou algum tipo de banana que faz tudo que ela manda, não acha?

– Faço. É a minha especialidade. Suponho que você enjoou de comer salmão defumado.
– Acertou. Há tempos. Preciso de algo mais, mais... – ela procura a palavra. – mais substancioso. E divertido. E saboroso.
– Certo. Que horas você passa aqui?
– Umas dez e trinta e cinco.

Afasto o telefone do ouvido e dou uma conferida no horário.

– Já são dez e trinta e cinco, Juliete.
– Pois é. Joga a chave pela janela. Só cuida para não enroscar nos galhos da árvore. Vou até uma loja de conveniência buscar a comida. Quando voltar, subo direto. Me espera vestido, por favor.
– Sua maluquete.
– Vamos logo, caramba. Estou com frio.

Nenhum traço de tristeza, desta vez. Só de loucura. Talvez hoje, especialmente, ninguém morreu ou fez aniversário de morte ou a empurrou contra a parede ou gritou com ela; Juliete está de humor firme e assentando, simplesmente quer me ver e já decorou o caminho para fazer o lance acontecer. Parece bom. Estamos naquele ponto inconveniente – talvez não para ela, mas para mim, certamente – em que vamos nos institucionalizar como amigos. Ah, qual é? Isso é uma boa coisa, não é? Quantos rapazes da minha geração podem afirmar que são amigos de uma garota? Talvez amanhã eu procure o banco de sêmen central da cidade e ganhe algum dinheiro com a pequena reserva que fiz desde que Juliete entrou naquele café de merda. Universo, você é como um pai pra mim.

Além de deixar os caras na mão, me esqueço de reportá-los minha permutação de planos e simplesmente não apareço. A parte boa de estar idiotamente apaixonado é essa. Você pode perder a direção no modo de agir e, se convir, abandonar dois dos três mosqueteiros plantados num pub, sem desculpas razoáveis, enquanto cozinha macarrão com salsichas para a garota que você está a fim e, logicamente, quer comer – ou “fazer amor”, como ouço dizerem por aí. Quem sabe é isso que as pessoas queriam dizer nos anos 1980 com estourar a boca do balão? Talvez eu estoure a boca do balão hoje. Umas três vezes. E mais uma vez amanhã pela manhã, na sinfonia prateada dos pássaros, logo ao acordar. Vamos ver.