» Leitor novo? Recomendo iniciar pela 1ª temporada, capítulo (001).

(038)

Chego ao escritório do sujeito misterioso, e o desencanto já inicia por aí. Eu esperava mais. Não sei, mais refinamento, mais plantas pelos cantos, mais claridade, mais açúcar naquele café que mais parecia um subproduto do departamento de saneamento básico municipal, mais ônibus carregando gente para aquele lado da cidade, ou então, pelo menos, uma secretária com mais pernas e menos bochechas já me faria um bem desgraçado. Nada disso. O lugar lembra mais o gabinete de um detetive particular do que a agência de um editor que sabe das coisas: tem infiltrações nas paredes, janelas fumaceadas baralhando a única regalia do prédio, que é uma vista enorme para o Guaíba, prateado pelas emissões solares. É com o queixo encostado no resguardo da janela que eu espero o cara, após ser anunciado sem muita apoteose.

Ele tem a simpatia, a calma e a persuasão de quem tem trinta anos de mercado na garupa. Fala sobre um monte de troços que eu não estou interessado em saber, enquanto ricocheteio minha bunda na cadeira dura. Ele não me olha nos olhos, não pergunta onde nasci, nem desde quando escrevo, e nem como pude esconder meu talento durante todo esse tempo, pois claramente estamos diante de um prodígio, um novo Philip Roth ou similar e blá-blá-blá. Não, ele não diz nenhuma dessas coisas, parece que o meu manuscrito não o empolgou tanto assim. E também seria mentira dizer que nunca fui atrás de dilatar o meu talento. É só o que tenho feito até hoje, não tenho culpa se o meu talento é ser normal, pálido e medíocre.

O coloco na parede, querendo saber como foi que ele obteve meu trabalho, e o tal editor se esquiva. (Ele começa a se vangloriar de todos os seus feitos pregados na parede, e a dizer nomes de escritores famosos a quem ele deu projeção e toda essa lenga-lenga. Depois de muita enrolação, o senhor velhusco toca no nome de um escritor daqui sobre qual já se ouviu falar, talvez já se tenha lido alguma coisa dele, inclusive alguns diriam que ele já está morto numa enquete de rua sobre seu paradeiro. Não entendo.) Vamos à proposta.

– Você tem um ótimo trabalho aqui, meu jovem – ele diz, folheando uma encadernação cuja folha de rosto traz meu nome.
– Uhum, uhum – resmungo. Ele continua.
– Você tem uma prosa calorosa, uma verborragia orgânica, uma juventude feérica que não se vê mais muito nesses dias de hoje – completa. E eu, sentado em sua frente feito um pudim, assinto com o maxilar, mesmo quase não entendendo nada do que ele falou.

Um minuto interminável até que ele pare de embromar e largue o rascunho na mesa.

– Então, meu rapaz. Na sua opinião, quanto vale o seu trabalho?
– Bem. Umas sete noites de amor com a Jennifer Aniston, mais ou menos.

Ele começa uma risada e a interrompe abruptamente, ficando sério.

– Então. Eu estive pensando...

Puta merda. Não era esse o trato. Quero dizer, essa foi a primeira tratativa, mas em nenhum dos minutos que gastei vindo até aqui, imaginei que isso não teria a ver comigo, com o nome Santiago Ventura, com o mais novo jovem romancista de vanguarda do pedaço (isso em meus devaneios mais desenfreados, claro). Saio porta afora e não fico de dar uma resposta, mas ele fica de me telefonar na semana que vem para, sabe como é, ver o que eu achei da proposta e se eu pensei melhor. Vou embora com a última frase que ele diz, se dirigindo às minhas costas de saída daquele escritório imundo: “Quem disse que tem coisas que não se compra ainda não ouviu a proposta”. Foi o mais próximo que já consegui me sentir de uma puta, e olha que já fui abusado outras vezes. Só que dessa vez não foi das mais legais.

Olha, eu não quero, e não vou, dizer o que o imbecil me disse, porque além de me causar engulho, estou voltando pra casa e agora mesmo o céu liberou uma daquelas chuvas de pré-verão, que acontecem naqueles dias quentes em que você nem pensou em sair de casa com a droga de um guarda-chuva. Está tudo alagado, congestionado e encharcado, incluindo o manuscrito do meu romance, que fiz questão de tomar de volta. Mas tem um filme de que eu gostei muito quando tinha uns dezoito anos – acho que tem o Ben Affleck –, contudo não guardei o nome. E a piada do enredo diz muito sobre isso, talvez: um cara se apaixona por uma garota mesmo sabendo que ela é lésbica, e mesmo assim ela topa namorar com ele, causando um gigantesco ciúme no melhor amigo dele, que por sua vez descobre que a garota fez um ménage uma vez, com dois colegas dos tempos de escola. Bom, certa altura estão todos infelizes e desapontados pelas mais diversas razões. Então o personagem central, sem saber como resolver tudo, propõe que todos os três se juntem na mesma cama, para exorcizar o passado e cada um dos receios do suposto triângulo. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo. O editor obscuro me ofereceu um sexo a três, quando eu só queria a porra de uma namorada e ser feliz. Ah, lembrei, o título é Procurando Amy.

***
É claro que não esperei três semanas. Se deu para tirar uma lição disso tudo é que não dá pra ser cem por cento legal. E, pelos meus cálculos, eu já tinha sido 33% legal e isso é muito mais do que muita gente consegue ser. No sétimo dia eu já estava discando os números escritos naquele recibo amassado da máquina de débito.

Ponto para mim. A garota, a tal de Sarah (que no terceiro dia me lembrei de onde a conhecia; é a Garota Falante do Café Descafeinado!), não perguntou porque demorei tanto, mas me justifiquei mesmo assim. Contei uma história de que estava envolvido num casinho que já estava indo para o buraco de toda maneira, e que não era aconselhável misturar garotas e tal-tal-tal. Ela caiu, muito porque a historinha procede, e o tom da minha voz saiu sincero e bonitinho.

– Vamos sair? Eu pago – ela se joga. Gosto disso. Gosto de garotas que se oferecem pra pagar, mesmo que eu não aceite a contribuição.
– Claro. Vamos, sim. Mas antes eu preciso saber. Você está em alguma outra?
– Como? – ela parece confusa.
– Situação – tento explicar. – É que, uma besteira minha, mas não curto muito sair com pessoas que já estão com outros lances acontecendo. Sei lá, gosto de saber que sou o único, que não estou furando a fila, atravancando a vida de alguém.
– Não, não. Faz tempo que não saio com ninguém, na verdade. E também não vai pensando que ando com um bloquinho na bolsa e saio jogando meu telefone nos ventiladores dos restaurantes.
– Tudo bem. Era só pra saber mesmo.

Isso quer dizer que o rapazinho aquele não tomou atitude nenhuma e acabou ficando para trás. Eu sei, eu sei, o prazo era de três semanas, mas ele devia ter feito alguma coisa no máximo naquele dia. Foda-se. No meu lugar ele faria o mesmo, se tivesse cacife.

***
Fomos dar uma volta uma noite fresca dessas. Ela foi me pegar em casa com sua scooter e um capacete extra. Após breves momentos de hesitação e uma intermitente tremedeira na panturrilha esquerda, eu até que gostei de sentir novamente o medo e a brisa na cara. Estacionamos num gramado, o chão estava úmido, ficamos sentados um tempo, fumando uns cigarros, sem medo do escuro ou do silêncio. Perguntei onde estávamos, e Sarah me diz que ali é o campo oficial do time de rúgbi feminino com quem ela treina às sextas-feiras e disputa campeonatos nos sábados pela manhã. Ótimo, ela me pega em casa de motocicleta e joga num time de rúgbi. Já sabemos quem é o James Dean da relação. Me sinto um pouco menos másculo do que há sete minutos. Mas logo passou.

Você precisava ver o entusiasmo da moça com o queixo em pé e a boca entreaberta cuidando o negrume do céu. Acredita que ela não sabia que existe mesmo esse troço de estrela cadente? Achava que era uma espécie de fantasia das pessoas que estão começando a desgostar da vida. Meio que tinha razão, eu disse a ela, quanto a esse lance de pedidos e tudo. Então sugeri que deitasse a nuca na minha coxa e fixasse os olhos num ponto. Até que ela viu, lá distante, de relance, sem muita certeza. Aí largou um sorriso lacrimejante. Foi aí que a gente encostou os lábios. Foi bonito. Depois conversamos mais um pouco, pensamos coisas separadamente, fizemos mais alguns silêncios. E retornamos vivos para casa. Eu para a minha, e Sarah para a dela, na Zona Sul.

Não quero entrar em longos devaneios, e nem romancear demais, acabando por desenvolver aqueles sintomas tradicionais de quem acha que deve fazer um telefonema, mas não lembra direito do rosto da pessoa com quem quer falar. Muito porque sou um ás em colocar rostos fictícios em corpos de pessoas reais, em repassar na lembrança imagens violentas de um amor inventado, e sempre acabo vivendo todo o romance e sua sequência de fatos dentro da minha cabeça, sem conseguir ver que lá fora tudo ocorre como num desastre em decomposição.

Porém, eu gostei dela. É raro encontrar alguém que vê além das nuvens, que se senta no meio do nada pra caçar estrelas e trocar ideias com a lua. Há pouco azul na cidade, ninguém dá mais bola para o firmamento, estão todos vivendo sem perceber os prédios se erguendo na volta e engolindo nossa capacidade de reparar nos detalhes.

Se eu pudesse escolher, é claro que não estaria ali. Só que eu nem sei onde estaria, e o primeiro lugar que me vem à tona não é exatamente um lugar, e assim percebo que na verdade não tenho nenhum rumo em mente. Nem pra onde ir, nem o que fazer, e nem quem procurar. Tudo que eu faço achando que é por amor, é uma busca por prazer, é para me sentir vivo. O prazer é a trégua da minha agonizante guerrilha existencial.

É por isso que, em alguns meneios desse encontro com Sarah, eu me sentia meio sem nada a acrescentar. É óbvio. Estou recomeçando, zarpei de uma maravilhosa terra prometida e estou me recuperando para avistar uma nova ilha deserta para atracar. E quando todos já saltaram, é aí mesmo que tudo fica leve e diminui o risco de afundar. Acredite sempre no barco.

***
Juliete me liga na manhã seguinte. Não atendo. Ela deixa recado. Não acesso. Um anônimo toca o interfone apaixonadamente, e eu escorrego para baixo da cama, tampo os ouvidos e finjo que não estou, ou que estou morto, que dei um tiro nos miolos ou que tomei uma grande quantidade de drogas enlouquecedoras ou que sofri uma parada cardíaca durante a noite. Ela liga mais uma vez. Dessa vez não deixa recado. Dou um tempo e vou para a cafeteria trabalhar.